Emerson Celestino
O consumidor cansou de ser insultado.
Agora, responde com a carteira. Meu negócio, minhas regras!
Durante anos, parte dos brasileiros foi chamada de fascista por pensar diferente. Agora, quando decide não consumir produtos de quem o despreza, descobre que sua liberdade de escolha incomoda muito mais do que suas opiniões.
Existe uma velha máxima que muitos parecem ter esquecido: ninguém é obrigado a financiar quem não o respeita.
O debate sobre "meu negócio, minhas regras", toca justamente nessa ferida.
E talvez o incômodo provocado por Empresas e Empresários diga muito mais sobre determinados setores da sociedade do que sobre o próprio conteúdo da discussão.
Durante anos, milhões de brasileiros foram tratados como inimigos por simplesmente terem feito escolhas políticas diferentes. Foram chamados de fascistas, extremistas e golpistas.
Ouviram gritos de "recua, fascista" nas ruas, nas redes sociais e em manifestações públicas.
Foram ridicularizados por artistas, influenciadores, empresários e celebridades que pareciam acreditar que poderiam desprezar uma parcela expressiva da população sem sofrer qualquer consequência.
Pois bem. O consumidor resolveu recuar.
E levou consigo aquilo que ninguém pode tomar à força: o dinheiro conquistado com seu próprio trabalho.
Agora, o que antes era apresentado como liberdade de expressão passou, para alguns, a ser tratado como intolerância quando a resposta veio do outro lado. Curioso, não?
A liberdade só vale quando favorece determinada ideologia?
O cidadão pode ser insultado, mas não pode escolher onde comprar? Pode ser chamado de fascista, mas precisa continuar pagando a conta de quem o ofende?
Não funciona assim.
O dinheiro do trabalhador brasileiro não tem dono além de quem o conquistou.
Cada real representa esforço, tempo, renúncia e, muitas vezes, uma batalha diária para fechar as contas no fim do mês.
Escolher onde gastá-lo é um direito elementar. Não existe obrigação moral, comercial ou ideológica de sustentar empresas e personalidades que não demonstram o mínimo respeito pelo consumidor.
Isso não é censura. Não é perseguição. Não é autoritarismo.
É liberdade de escolha.
E existe ainda uma contradição que merece ser exposta: a compaixão seletiva.
Nas redes sociais, não faltam discursos sobre empatia, diversidade, tolerância e respeito.
Mas onde estava toda essa sensibilidade quando pequenos comerciantes perderam seus negócios durante a pandemia?
Onde estavam os grandes defensores da solidariedade quando famílias enfrentavam dificuldades para colocar comida na mesa, sufocadas pela inflação e pelo custo de vida?
A solidariedade não pode ter partido, endereço ideológico ou lista de clientes preferenciais.
Respeito não é um privilégio concedido apenas a quem pensa como nós.
É evidente que cada empresa, artista ou personalidade tem o direito de manifestar suas posições.
A democracia assegura esse espaço. Mas existe uma consequência igualmente legítima: o público também tem o direito de responder, inclusive deixando de consumir.
Quem deseja transformar sua marca em palanque político precisa entender que o consumidor não é figurante de sua estratégia de marketing. É gente. É trabalhador. É cidadão. E merece respeito.
Talvez a grande lição desse episódio seja justamente esta: o brasileiro está percebendo que sua força não está apenas no voto depositado na urna, mas também nas escolhas que faz todos os dias.
O poder econômico não pertence exclusivamente aos grandes grupos, às celebridades ou aos donos das marcas. Ele também está nas mãos de milhões de consumidores anônimos, que trabalham, pagam impostos e decidem livremente onde colocar o dinheiro.
E quando essas pessoas resolvem retirar seu apoio, não há discurso bonito, campanha publicitária ou manifesto nas redes sociais capaz de obrigá-las a voltar.
No Brasil, durante muito tempo, mandaram o cidadão recuar. Agora, quando ele recua por vontade própria, alguns descobrem que a liberdade tem consequências.
Chamaram de fascista quem pensava diferente. Agora reclamam porque esse mesmo cidadão decidiu não pagar a conta.
No fim, fica uma pergunta que deveria incomodar muito mais do que qualquer boicote: de que adianta defender tanto a liberdade se não se consegue respeitar a liberdade de quem pensa diferente?
Porque democracia não é apenas aceitar o voto do outro. É respeitar também suas escolhas, inclusive quando elas atingem o próprio bolso.
O consumidor não precisa gritar para ser ouvido. Às vezes, basta fechar a carteira.
Emerson Celestino
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