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O juri

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O juri

De repente, eu morri. Em vida, quando pisava numa formiga por distração, já me vinha um aperto no peito. Pois não é que, em segundos, todas as formigas que sacrifiquei estavam lá, me encarando?
Todos os meus erros, que a gente costuma chamar de pecados, com certa solenidade, desfilaram pela minha frente. 
Havia uma espécie de júri. Imaginei que ali estariam meus pais, alguns bons amigos e, quem sabe, os inimigos de sempre.
Não me surpreendi com a quantidade de bobagens que cometi.
Muitas delas serviram de lição para que eu não errasse de novo. Outras tantas, fiz questão de repetir. Aliás, nem sei por que certas coisas estão catalogadas como pecados. Ou talvez saiba, e prefira esquecer.
Até os pensamentos mais antigos e impuros voltaram à tona.
Lembrei-me de Rubem Braga contando, em uma de suas crônicas, que se considerava um ladrão mesmo sem nunca ter tocado no alheio. É que uma vez, estando duro e com fome, seguiu uma senhora que saía do banco com a bolsa cheia.
O simples fato de ter desejado o dinheiro já bastava, para ele, como condenação.
Mas o velho Braga exagerava um pouco na dose de culpa. Pensamentos ruins são o que mais temos na vida. É preciso manter a honestidade na régua mais alta para resistir ao crime do mundo, e acho que foi isso o que pesou a meu favor depois que parti.
Meus piores impulsos nunca viraram gesto.
Desejar o fim de um político canalha, arrancar o fígado de quem me passou a perna ou quebrar os ossos daquele sujeito que me deu um drible humilhante no futebol...
São coisas humanas, da carne. 
Assim como fui absolvido pelo júri das formigas, o Braga por certo também foi.
Depois do tribunal, fui levado a outro lugar. Não havia sons, cores ou imagens.
Apenas uma sensação mansa de não ter compromissos, nem contas a vencer, nem o peso do próprio corpo para carregar nas subidas da vida. Uma paz sem tamanho.
Só não gostei quando uma voz me avisou que eu teria de voltar.
Antes que eu pudesse protestar e pedir para ficar ali, na minha quietude, me transformaram num espermatozoide veloz, pronto para a corrida.
Lá vou eu, outra vez, começar tudo do zero.
                                               Dirceu Herrero Gomes





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