Governo Lula ‘zerou’ a fila do INSS?

Mais de 200 mil pedidos ainda aguardam resposta há mais de 45 dias

Estadao/ Danielle Brant
Governo Lula ‘zerou’ a fila do INSS? Reprodução Ilustrativa/

No início de setembro, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, anunciou que zerou a fila de espera para concessão de benefícios do INSS, que havia superado 3 milhões de pedidos em fevereiro.
Zerar a fila era uma promessa de campanha de Lula ainda nas eleições de 2022.
Ainda assim, mais de 200 mil pedidos aguardam resposta há mais de 45 dias, que é o prazo legal.
Procurado, o Ministério da Previdência diz que o tempo médio de análise está em 34 dias, abaixo dos 45 previstos em lei, e que o atendimento hoje segue uma lógica de fluxo, e não de fila.
O que é a fila do INSS
A fila do INSS é formada por pedidos de benefícios feitos por segurados, mas que ainda não tiveram deliberação final do órgão.
A lei que trata dos planos de benefícios da Previdência Social determina que o primeiro pagamento do benefício seja feito até 45 dias após o segurado apresentar a documentação necessária à sua concessão. Assim, solicitações tramitando dentro desse período são consideradas dentro do prazo legal.
Como é formada a fila do INSS
O Ministério da Previdência apresenta os dados da fila conforme faixas de tempo de espera e etapas dentro do órgão - o que depende de avaliação social, perícia e de deliberação do próprio INSS (deferimento ou indeferimento).
No primeiro caso, o tempo vai de até 45 dias a acima de 180 dias.
A outra segmentação detalha o que está parado por alguma pendência do segurado; análise para benefícios assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) - pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda - e os previstos em leis específicas; o que aguarda a perícia médica federal e o que depende do INSS.
A alta recorde de fevereiro deste ano (3,128 milhões) foi influenciada por um aumento expressivo (21,8%) dos pedidos que dependiam de alguma ação do INSS na comparação com o mês anterior - foram 1.173.556 solicitações, ante 963.684. Mais da metade (55,8%), porém, estava dentro do prazo de 45 dias para análise.
Categorias de pedidos
Os dados de fila estão disponíveis no portal da Transparência Previdenciária, lançado em julho de 2023 para dar mais publicidade aos dados.
Segundo registros de julho, o maior volume de solicitações foi para receber benefício por incapacidade, o antigo auxílio-doença, que respondeu por 45,4% dos requerimentos.
Desde março, os requerimentos de BPC e benefícios de legislação específica superam os pedidos de aposentadoria. Além disso, em janeiro de 2026, houve um salto proporcional nas solicitações de salário-maternidade, que passaram a representar 16,7% do total - em julho, a fatia foi de 16,5%.
Por que o governo diz que zerou a fila? O Ministério da Previdência afirmou que usa dois critérios principais para dizer que a fila hoje está zerada: o tempo médio de concessão (de 34 dias em agosto) e adoção de um critério que que considera a capacidade de análise do INSS em relação ao volume de entrada de novos pedidos - o que chama de fluxo de atendimento.
Até agosto, porém, o principal parâmetro para avaliar a fila era o número de solicitações dentro do prazo de 45 dias - que, por sua vez, ainda não foi zerado.
“Quanto aos processos de mais de 45 dias, eles estão atualmente em 218 mil e chegarão, sim, próximo de zero. São processos mais complexos, com análises mais longas como é o caso do BPC, que demanda a realização de perícia médica e biopsicossocial”, disse ao jornal Estadão o ministro da Previdência, Wolney Queiroz. “Além disso, o prazo de exigência, ou seja, o período em que o processo está nas mãos do segurado esperando resolver alguma pendência, também é contado nesse tempo de 45 dias.”
Em agosto, a fila de pedidos iniciais ficou abaixo da de novos pedidos. O ministério argumenta que, como o estoque de pedidos iniciais ficou abaixo do volume de novos pedidos, há um fluxo.
Como especialistas veem o anúncio?
Especialistas avaliam que houve uma melhora na administração da fila, especialmente após a saída do ex-ministro Carlos Lupi, demitido em maio de 2025 e substituído pelo atual titular da Previdência, Wolney Queiroz.
“Claramente houve nos primeiros três anos do governo um problema de gerenciamento flagrante. Isso está associado às características da gestão do Ministério, em particular na época do ministro Lupi”, diz o economista Fabio Giambiagi. “Quando houve um troca-troca de nomes, me dá a impressão de que o atual ministro é bem mais executivo e conhecedor da máquina.”
Na avaliação dele, deveria ser viável reduzir o número de pedidos em análise em até 45 dias para alguma coisa entre 200 mil e 300 mil e zerar os requerimentos acima desse prazo - quando não houver qualquer pendência com o segurado.
Procurado, o ministro Wolney Queiroz indicou que a avaliação do economista “mostra uma desinformação sobre o assunto, pois entram 1,3 milhão de pedidos todos os meses”. “Já estamos em fluxo de atendimento, ou seja, todas as pessoas que fazem pedidos já estão sendo atendidas. Nosso tempo médio de atendimento no país é de 34 dias”, disse.
Tiago Sbardelotto, analista sênior da XP, também avalia que houve uma piora no início do governo, com atraso de divulgação de informações, mas que melhorou nos últimos meses. Ele diz ter ressalvas em relação ao anúncio do governo de que zerou a fila.
“Você teve uma redução de fila muito rápida, e que foi feita ali de uma forma que, a meu ver, vai gerar um refluxo no futuro”, afirmou.
Ele afirma que historicamente o porcentual de deferimento gira em torno de 58%. Nos últimos meses, no entanto, essa fatia tem ficado abaixo de 50%.
“Muito do que foi feito ali de acelerar essa análise de pedidos acabou sendo feito, a meu ver, de uma forma que deixou de conceder muitas vezes esses benefícios por alguma questão ali de documento ou algum detalhe, mas que não vai resolver o problema no longo prazo”, disse.
“Esses pedidos que foram negados muito provavelmente são de um pessoal que teria direito e, por questões burocráticas, acabaram tendo o pedido negado”, complementou.
“Esses pedidos vão retornar em algum momento, seja pela via administrativa, ou seja, o cidadão que teve o seu pedido negado vai submeter novamente o pedido, agora com documentos que estavam faltando e esse pedido vai gerar ali um fluxo de fila”, disse. “E a outra possibilidade é esse sujeito, esse cidadão ir para a justiça.”
O secretário-executivo do Ministério da Previdência, Felipe Cavalcante e Silva, afirma que os requerimentos eles cresceram em torno de 40% desde 2023.
“A gente chegou num cenário em que havia um estoque, havia uma fila a ser combatida e todos os números cresceram. E assim, é importante perceber que a gente na verdade nunca concedeu tanto na história como fizemos agora nesse período mais recente”, disse.
“Não houve em momento algum um indeferimento em massa, em momento algum buscou negar benefícios apenas para reduzir a fila”, continuou.
“O que acontece é que as pessoas precisam passar pelos requisitos que estão previstos em lei e quando a gente percebe uma explosão no número de requerimentos, nós estamos avaliando internamente que possivelmente boa parte dessas pessoas que passou a pedir não tinha direito pleno ao benefício previdenciário, não preenchiam os requisitos”, continuou.
“Então muito provavelmente são pessoas que não preenchem os requisitos e isso leva inevitavelmente ao indeferimento, porque a gente está aqui para conceder benefício a quem tem direito, mas também para negar o benefício para quem não tem direito.”




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