Organograma apreendido cita “Mário” como sócio

Papel encontrado em operação liga “Mário” à estrutura americana de Dark Horse e amplia pressão sobre Frias

Demétrio Vecchioli/edsonvalerio.com.br
Organograma apreendido cita “Mário” como sócio BRENO ESAKI/METRÓPOLES

Um simples organograma feito à mão passou a integrar o conjunto de documentos que cercam a investigação sobre o financiamento de Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

No desenho, a Go Up Brasil aparece conectada à operação nos Estados Unidos. Logo abaixo da empresa americana, uma anotação chama atenção: “sócio Mário”.

O documento foi apreendido pela Polícia Civil de São Paulo durante uma operação realizada em junho em endereço ligado a Karina Ferreira da Gama, presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB) e responsável pela produtora brasileira do filme.

Agora, depois que o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, retirou o sigilo do material, o papel passou a ser conhecido publicamente.
O documento não diz qual “Mário” é citado

Há uma cautela importante. O organograma não traz sobrenome, não informa quem fez as anotações e, até agora, não há nos autos um relatório da Polícia Civil interpretando formalmente o significado daquele desenho.
Portanto, o documento, isoladamente, não comprova que o “Mário” anotado seja o deputado federal Mário Frias (PL-SP).
A relevância surge do contexto. Frias escreveu o roteiro de Dark Horse, aparece como produtor executivo do filme e mantém diferentes vínculos documentados com Karina Gama, com o ICB e com empresas ligadas ao mesmo grupo.
Dino cita Frias ao falar em possível liderança

Ao retirar o sigilo das investigações, Flávio Dino foi além do organograma.
O ministro afirmou que, dentro da hipótese investigativa, Mário Frias apareceria com possível papel de liderança em uma “suposta arquitetura criminosa” envolvendo circulação de recursos públicos e empresas relacionadas à produção cinematográfica.
Trata-se, neste momento, de uma linha de investigação, e não de uma conclusão judicial.
Frias não ocupa formalmente uma posição societária conhecida na estrutura americana utilizada na produção. É justamente por isso que a anotação “sócio Mário” desperta interesse dos investigadores.

Frias transferiu mais de R$ 600 mil à produtora

Outro ponto que chamou atenção da Polícia Federal está no fluxo financeiro. Como pessoa física, Mário Frias transferiu mais de R$ 600 mil para a Go Up Entertainment.
A investigação também identificou pagamentos feitos pela produtora relacionados a despesas do parlamentar, incluindo faturas de cartão de crédito.
Essas movimentações integram o conjunto que a PF tenta compreender para definir a relação financeira entre Frias e a estrutura empresarial que produziu Dark Horse.

Emendas chegaram ao instituto comandado por Karina

A ligação também passa pelo Instituto Conhecer Brasil. Como deputado federal, Frias destinou recursos de emendas parlamentares ao ICB, entidade presidida por Karina. A Polícia Federal investiga se parte de valores movimentados por entidades e fornecedores posteriormente chegou a empresas ligadas à produção cinematográfica.
A existência dos repasses, por si só, não comprova desvio. É justamente a origem, o caminho e o destino final do dinheiro que estão sob apuração.

Go7 aparece entre o ICB e a produtora

Outra empresa que aparece nesse caminho financeiro é a Go7, também ligada a Karina Gama.
Segundo os dados reunidos na investigação, a empresa recebeu cerca de R$ 1 milhão de um fornecedor ligado ao ICB e posteriormente realizou repasses que chegaram a R$ 2,5 milhões para a Go Up, produtora responsável pelo filme.
Esse cruzamento de recursos tornou-se um dos pontos analisados pelos investigadores.

R$ 6,1 milhões também entram no quebra-cabeça

A Academia Nacional de Cultura (ANC), outra entidade relacionada a Karina, também aparece no fluxo investigado.
A apuração identificou aproximadamente R$ 6,1 milhões que teriam saído do ecossistema de fornecedores do ICB e chegado à ANC durante o período relacionado à produção do longa.
A Polícia Federal tenta estabelecer se houve triangulação de recursos entre organizações e empresas controladas ou relacionadas aos mesmos personagens.
Contrato milionário com a Prefeitura está na origem da investigação

Por trás dessa rede está um contrato do Instituto Conhecer Brasil com a Prefeitura de São Paulo para instalação e manutenção de pontos gratuitos de internet. O contrato inicial era de aproximadamente R$ 108 milhões.
É a análise sobre a execução desse projeto e sobre pagamentos feitos a empresas terceirizadas que acabou levando os investigadores a examinar vínculos entre o ICB, Karina, outras empresas e a estrutura financeira de Dark Horse.

Documento ganha peso pelo conjunto, não isoladamente

O organograma manuscrito não funciona, sozinho, como prova de sociedade ou participação criminosa.
Mas passou a integrar um quebra-cabeça muito maior.
De um lado, existe a anotação “sócio Mário” ligada à operação americana da produtora.
De outro, aparecem os vínculos conhecidos de Mário Frias com o filme, as emendas destinadas ao Instituto Conhecer Brasil, transferências particulares para a Go Up e movimentações financeiras entre entidades relacionadas a Karina. É esse conjunto que agora será analisado pelos investigadores.
Caso chegou ao Supremo

A investigação ganhou nova dimensão depois que Flávio Dino assumiu a análise de parte das apurações relacionadas às emendas parlamentares e determinou a retirada do sigilo.
Com isso, documentos que até então permaneciam restritos ao inquérito passaram a revelar detalhes da estrutura empresarial e financeira montada em torno do filme.
A própria produção de Dark Horse já aparece em diferentes frentes investigativas, incluindo o financiamento obtido no exterior e a movimentação de recursos envolvendo empresas e entidades brasileiras. O organograma manuscrito acrescenta agora mais uma pergunta:
quem é o “Mário” apontado como sócio da operação americana da Go Up — e o que exatamente essa anotação representa? Essa resposta ainda dependerá da investigação.




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