Aromatizante em vapes pode afetar embriões.

O aromatizador da baunilha em cigarros eletrônicos pode interferir nas primeiras fases de desenvolvimento embrionário

Paloma Oliveto/CorreioBrasiliense
 Aromatizante em vapes pode afetar embriões. Foto: Jim Hedd/Divulgação

Um dos compostos responsáveis pelo sabor de baunilha em cigarros eletrônicos pode interferir em etapas muito precoces do desenvolvimento embrionário, segundo um estudo publicado na revista científica Human Reproduction.
Em experimentos com células-tronco humanas, a vanilina provocou alterações na identidade e no comportamento celular, incluindo a perda da habilidade de se transformarem nos tecidos que darão origem a todos os órgãos do corpo. 
Os autores destacam que o estudo não determina que o uso da vanilina no cigarro eletrônico provoca morte embrionária ou malformação em seres humanos. Os testes demonstram, porém, a interferência do composto em processos fundamentais para o desenvolvimento do embrião, levantando preocupações sobre o uso do aromatizante por gestantes.
Prue Talbot, professora da Biologia Molecular e Celular da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e líder do estudo, afirma que a descoberta, se confirmada, poderá associar o uso de cigarro eletrônico à dificuldade de engravidar e a abortos espontâneos. Ela explica que, como seria antiético estudar o efeito de uma substância química em gestantes, os cientistas utilizaram células-tronco humanas, semelhantes às encontradas nas primeiras três semanas de um embrião. 
Aerossóis
“Há pouco conhecimento sobre como o uso de cigarros eletrônicos pode afetar o desenvolvimento de embriões em mulheres grávidas que os utilizam”, disse Talbot. “Queríamos entender como os componentes químicos dos aerossóis dos cigarros eletrônicos podem afetar embriões humanos jovens e identificar o tipo de dano que pode ocorrer.” Os pesquisadores se concentraram na vanilina porque a substância é frequentemente usada em líquidos para os vapes, geralmente em altas concentrações. “Também sabíamos que as células embrionárias têm um canal chamado TRPV4 em suas superfícies, que provavelmente se ligaria à vanilina.”
Talbot e a bióloga Shabnam Etemadi expuseram células-tronco embrionárias humanas em placas de cultura a diferentes concentrações de vanilina: concentrações nanomolares (baixas) ou micromolares (altas). Elas também experimentaram bloquear a ligação da substância para checar se era possível reverter o efeito. 
As células-tronco embrionárias têm o potencial de se diferenciar em qualquer tipo celular.
No desenvolvimento embrionário normal, elas formam três estruturas: endoderme, ectoderme e mesoderme. “Descobrimos que concentrações micromolares tendiam a matar as células. Já os níveis mais baixos faziam com que as células perdessem a pluripotência, que é a capacidade de se desenvolver em todos os tipos celulares”, descreve Talbot. 
Revestimento
 A vanilina também fez com que as células-tronco se diferenciassem em endoderme, em vez de ectoderme ou mesoderme. O primeiro é um tecido embrionário que dá origem ao revestimento do intestino e aos órgãos respiratórios. Segundo os autores, essas alterações são potencialmente graves. “Em embriões sem ectoderme, o sistema nervoso não se desenvolveria. Em embriões sem mesoderme, muitos tecidos, como os músculos, não se desenvolveriam”, explicam, no artigo. 
Talbot ressalta que nem sempre o usuário conhece os produtos químicos presentes nos cigarros eletrônicos. “Nossos resultados sugerem que as mulheres devem ser cautelosas e aconselhadas por médicos a não usar vapes durante a gravidez, especialmente se estiverem com dificuldades para engravidar ou tiverem histórico de abortos espontâneos.”
Ian Musgrave, professor de farmacologia na Universidade de Adelaide, na Austrália, explica que a vanilina, muito usada também em perfumes e alimentos, é o que dá o aroma característico ao extrato de baunilha e afirma que muitas pessoas desconhecem os efeitos nocivos potenciais do composto, como reações alérgicas e enxaqueca. “O tabagismo é notoriamente prejudicial à gravidez, por isso muitas mulheres jovens estão optando por cigarros eletrônicos, acreditando que sejam mais seguros. A vanilina é amplamente utilizada nesses produtos e é facilmente absorvida pelos pulmões”, diz Musgrave, que não participou do estudo norte-americano. 
Para o pesquisador, apesar de o estudo ter sido feito em células-tronco, o resultado serve de alerta. “Seria prudente que grávidas ou mulheres que estejam planejando engravidar tivessem cautela ao usar cigarros eletrônicos. Durante a gravidez, é importante estar ciente desse potencial dano e evitar ou minimizar o uso de vapes, enquanto investigações mais detalhadas sobre a exposição à vanilina são realizadas.”
Palavra de especialista
Karina Belickas, obstetra do Hospital e Maternidade Santa Joana (SP)Duas perguntas sobre o tema foram feitas para a Dra Karina Belickas, obstetra do Hospital e Maternidade Santa Joana (SP)
O estudo foi feito com células-tronco. O que se pode dizer, com segurança, sobre a exposição de um embrião humano ao aromatizante vanilina? 

Sempre que você faz uma pesquisa científica, tem que partir do princípio de uma coisa chamada plausibilidade biológica. Então, primeiro tem que comprovar, do ponto de vista laboratorial, se aquela hipótese faz sentido ou não. O objetivo do estudo foi testar se determinada quantidade de aromatizante vanilina no sangue da mãe poderia levar a alguma alteração celular no embrião. O pesquisador calculou quanto que deveria ter da substância no sangue da mãe, baseado na concentração que o fabricante definiu e usou essa quantidade em uma célula embrionária. Quanto que, de fato, chega à gestante ou ao bebê não temos quanto saber. O primeiro passo para conseguir testar essa relação é verificar se o teste faz ou não sentido. 
A pesquisa identificou o canal TRPV4 como a via pela qual a baunilha afetou negativamente as células. Por que o mecanismo é importante para o desenvolvimento embrionário?
O canal descrito é responsável pela entrada de cálcio dentro da célula e está relacionado com a definição da função da célula daquele embrião. Se a gente for pensar que um embrião parte de duas células, uma feminina e uma masculina, e a partir disso serão gerados todos os tipos de tecido do corpo, é preciso que essa célula seja capaz de se diferenciar. A teoria do estudo é que a ativação desse canal dificulta a diferenciação da célula e impede que os tecidos do embrião sejam desenvolvidos no local correto. 




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