Os resultados de pesquisas contra o Alzheimer.

Pesquisa encontra possível relação entre estrogênio e menor risco de demência em mulheres

Neurology/
Os resultados de pesquisas contra o Alzheimer. Reprodução FreePIK

Um novo estudo publicado na Neurology, revista científica da Academia Americana de Neurologia, encontrou uma associação entre o uso de terapia hormonal à base apenas de estrogênio e uma menor presença de alterações cerebrais relacionadas à doença de Alzheimer.
Os resultados chamaram a atenção porque foram observados não apenas em avaliações clínicas, mas também em exames de sangue e líquido cefalorraquidiano e, principalmente, em análises de tecido cerebral após a morte. Ainda assim, os próprios pesquisadores destacam que o trabalho é observacional e não permite afirmar que o estrogênio previna Alzheimer ou outras demências.
Menos alterações ligadas ao Alzheimer
Os pesquisadores utilizaram dados de duas grandes bases independentes: o National Alzheimer's Coordinating Center (NACC) e a Alzheimer's Disease Neuroimaging Initiative (ADNI).
Na análise neuropatológica, foram estudados dados de 258 mulheres que haviam utilizado terapia hormonal com estrogênio e 2.701 que não haviam usado terapia hormonal.
Entre as usuárias, a probabilidade de apresentar maior carga de alterações características da doença de Alzheimer na autópsia foi 35% menor em comparação com as não usuárias. Também foram encontradas associações com menor presença de marcadores relacionados à proteína beta-amiloide.
Outro resultado chamou a atenção: o uso de estrogênio isolado esteve associado a 39% menos chance de receber diagnóstico clínico de demência e a uma redução aproximada de 33% nas chances de apresentar problemas de memória ou perda da capacidade funcional.
Isso, porém, significa associação estatística, e não necessariamente que o tratamento hormonal tenha sido responsável diretamente pelas diferenças encontradas.
Estudo não prova que reposição hormonal previne demência
Esse cuidado é fundamental porque estudos anteriores chegaram a resultados bastante diferentes.
O Women's Health Initiative Memory Study (WHIMS), um dos maiores estudos randomizados já realizados sobre terapia hormonal e cognição, mostrou em 2003 que mulheres com 65 anos ou mais tratadas com estrogênio associado à progesterona sintética não tiveram proteção contra demência.
Naquele estudo, a terapia combinada esteve associada a aproximadamente o dobro do risco de diagnóstico de provável demência em relação ao placebo.
Em 2004, outra etapa do WHIMS avaliou mulheres da mesma faixa etária que utilizaram estrogênio isoladamente. Também não foi constatada redução na ocorrência de demência ou comprometimento cognitivo leve. Quando os dois desfechos foram analisados conjuntamente, houve aumento do risco entre as mulheres tratadas.
Essas diferenças ajudam a explicar por que a relação entre menopausa, estrogênio, idade de início do tratamento e saúde cerebral continua sendo investigada.
Idade e momento do tratamento seguem em debate
Uma das hipóteses estudadas nos últimos anos é a chamada “janela de oportunidade”. Segundo essa linha de pesquisa, os efeitos da terapia hormonal poderiam variar dependendo da idade da mulher e do intervalo entre a menopausa e o início do tratamento.
Mas essa hipótese ainda não resolve a questão da prevenção da demência. Há pesquisas com resultados diferentes, e fatores como fórmula hormonal, dose, via de administração, duração do tratamento e características individuais da paciente podem interferir nos resultados.
O novo trabalho da Neurology, inclusive, não significa que mulheres devam iniciar terapia hormonal em idade avançada para tentar evitar Alzheimer. As participantes analisadas eram mulheres mais velhas que haviam relatado uso de estrogênio ao longo da vida, e o estudo não foi um ensaio clínico criado para testar se começar o tratamento naquela idade impediria o desenvolvimento da doença.
E os riscos cardiovasculares?
Também é necessário cuidado ao relacionar terapia hormonal à prevenção de doenças cardiovasculares.
Os dados dos grandes estudos clínicos não sustentam a afirmação de que a terapia hormonal sistêmica convencional protege contra AVC.
Pesquisas do Women's Health Initiative encontraram aumento do risco de acidente vascular cerebral com terapia hormonal em dose padrão.
Nas mulheres mais jovens, especialmente abaixo dos 60 anos, o risco absoluto adicional é pequeno, em parte porque a ocorrência natural de AVC nessa faixa etária também é menor. Isso, entretanto, não equivale a dizer que o tratamento funcione como proteção contra derrame.
Ainda há perguntas a responder
O novo estudo acrescenta uma peça importante a uma discussão científica que permanece aberta.
Os resultados sugerem que determinadas mulheres podem apresentar melhores indicadores de saúde cerebral associados ao uso de estrogênio, mas ainda será necessário descobrir por que isso acontece e quais fatores interferem nessa relação.
Entre as questões que permanecem estão qual formulação hormonal poderia apresentar melhores resultados, em que momento o tratamento deveria começar, por quanto tempo deveria ser utilizado e quais mulheres poderiam efetivamente se beneficiar.
Por enquanto, as evidências disponíveis não justificam indicar terapia de reposição hormonal exclusivamente com a finalidade de prevenir Alzheimer ou demência.
A decisão sobre utilização de hormônios deve considerar os sintomas da menopausa, o histórico de saúde e os riscos e benefícios individuais de cada mulher.




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