No nariz pode ter "a chave" para lesões na medula.
Pesquisa da USP testou injeção de células-tronco da mucosa olfatória em roedores com lesão medular grave
No grupo que recebeu o tratamento mais completo, os roedores paralisados voltaram a andar já na terceira semana após a lesão. /Imagem: Magnific Uma lesão na medula espinhal ainda é, hoje, um dos cenários mais temidos dentro de um centro de trauma. Diferente de outros tecidos do corpo, o sistema nervoso central tem pouquíssima capacidade de se regenerar sozinho, e, até agora, a medicina não dispõe de nenhum tratamento capaz de reverter esse tipo de dano. O que existe são cuidados de suporte: remédios, fisioterapia, manejo da dor. Nada que devolva, de fato, a função perdida.
É nesse ponto que um estudo conduzido em diferentes laboratórios da Universidade de São Paulo tenta abrir uma brecha. A pesquisa, que deu origem à tese de doutorado de Brian Coimbra na Faculdade de Medicina da USP, testou em ratos uma estratégia até então pouco explorada: usar células-tronco retiradas do próprio nariz dos animais para tratar contusões agudas na medula.
Os resultados, ainda em fase experimental, surpreenderam a equipe.
No grupo que recebeu o tratamento mais completo, os roedores paralisados voltaram a andar já na terceira semana após a lesão.
A escolha da mucosa olfatória como fonte de células não foi aleatória. Ela ganhou força a partir de uma observação feita durante a pandemia de covid-19: pacientes que perdiam o olfato após a infecção, na maioria dos casos, recuperavam o sentido meses depois.
Esse fenômeno chamou atenção de pesquisadores para um tipo específico de célula, a ectomesenquimal, responsável por manter essa mucosa em constante processo de renovação.
A vantagem em relação a outras fontes já testadas no passado, como células do cordão umbilical ou da medula óssea, é o acesso. Extrair essas células, porém, não era fácil. A coleta do septo nasal costumava provocar sangramentos que inviabilizavam o material recolhido.
"O grande problema de coletar o septo nasal dos ratos é que eles sofriam uma contaminação hemorrágica importante. Então, quando você tirava o septo, o sangramento contaminava esse septo e inviabilizava as células", relata Coimbra, que desenvolveu uma técnica cirúrgica própria para contornar o problema.
Para reproduzir a lesão medular em laboratório, a equipe usou um equipamento chamado Mass Impactor, que deixa cair um peso de altura regulável sobre a medula do animal, simulando uma contusão.
Nos ratos Wistar do experimento, a queda foi fixada em 12,5 milímetros, o suficiente para causar dano neurológico visível, mas sem tirar dos animais a capacidade mínima de sobreviver ao processo.
"O rato sofre uma lesão neurológica que é visível, mas que permite que ele tenha uma função ainda residual nos membros e assim permite a sua sobrevivência", descreve Coimbra ao Jornal da USP.
Sessenta ratos foram acompanhados por seis semanas após a lesão, distribuídos em cinco grupos.
Os dois primeiros serviram de controle, submetidos apenas a procedimentos cirúrgicos preparatórios, a laminectomia, que expõe o nervo sem feri-lo, e a abertura da membrana que protege a medula, chamada saco dural. A partir do terceiro grupo, a lesão de fato começou a ser aplicada.
O quarto grupo recebeu, além da lesão, uma injeção de matrigel, um gel biológico rico em laminina, proteína que ajuda a conectar células do sistema nervoso e que serve como uma espécie de veículo, mantendo qualquer substância injetada concentrada exatamente no ponto da lesão.
Foi o quinto grupo, no entanto, que reuniu todos os elementos anteriores somados à injeção das células ectomesenquimais da mucosa nasal. E foi esse grupo que apresentou a resposta mais expressiva: os animais recuperaram a movimentação já na terceira semana de experimento.
O que as células realmente fazem
Um dos achados mais relevantes da pesquisa derruba uma hipótese que orientava parte da literatura científica sobre o tema. Não é que as células-tronco ocupem fisicamente o espaço da lesão, reconstruindo ali uma espécie de ponte nervosa. O mecanismo parece ser outro.
"Não é que elas [as células] vão ocupar o lugar da falha do nervo, elas carregam substâncias e atraem substâncias para esse local, geram substâncias ali que vão ajudar justamente a recuperação", explica Coimbra.
Na prática, as células funcionariam como um gatilho químico: ao chegar à área lesionada, recrutam e produzem substâncias que estimulam a regeneração dos neurônios ao redor, um efeito indireto, mas com impacto direto na recuperação motora observada nos animais.
Um caminho difícil, mas não impossível
Mesmo diante de resultados positivos, o próprio pesquisador faz questão de situar o achado dentro de expectativas realistas para uma área historicamente resistente a avanços.
"Sabemos que é um caminho muito difícil a investigação das lesões medulares, porque ainda não temos, do ponto de vista assistencial, validado para aplicação prática, nenhum insumo material ou terapia que consiga fazer uma reversão das lesões", pondera Coimbra. "Então sabíamos que seria difícil conseguir um resultado ultraexpressivo de recuperação neurológica, mas nós obtivemos alguns resultados positivos."
Os próximos passos da pesquisa devem se concentrar em entender com mais profundidade o que acontece em nível molecular durante esse processo de recrutamento celular, e, a partir daí, avaliar como essa terapia poderia, eventualmente, ser adaptada para uso em humanos, inclusive como base para o desenvolvimento de novos fármacos.
O trabalho, conduzido em parceria entre o Laboratório de Genômica Funcional do Instituto de Biociências da USP, o Laboratório de Estudos de Trauma, Raquimedular e Nervos do Instituto de Ortopedia e o Departamento de Patologia da FMUSP, deve resultar em seis artigos científicos, um deles destinado ao periódico internacional Global Spine Journal. As publicações estão atualmente em fase final de revisão.
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