Empresas brasileiras aprenderam a crescer. Agora precisam sustentar o crescimento
Durante décadas, crescer rápido foi quase uma medida de sucesso no empresariado brasileiro. Abrir novas frentes, ampliar operações e aumentar faturamento bastavam para demonstrar força diante do mercado. O problema é que muitas companhias chegaram a uma nova etapa: cresceram, ganharam escala, diversificaram negócios e, agora, precisam provar que conseguem sustentar essa expansão sem transformar complexidade em risco.
A discussão mudou de lugar. Saiu do discurso clássico sobre crescimento e entrou na agenda mais sensível das empresas: estrutura societária, governança, sucessão, processos decisórios e preservação de valor. Nos bastidores, empresários começam a rever modelos construídos, muitas vezes, em ciclos de forte expansão, mas ainda dependentes de decisões concentradas nos fundadores.
A 29ª CEO Survey da PwC ajuda a dimensionar esse movimento. O estudo mostra que 51% dos CEOs brasileiros afirmam que suas empresas passaram a competir em novos setores nos últimos cinco anos, enquanto 38% apontam a instabilidade macroeconômica como principal ameaça aos negócios.
O levantamento também revela que 45% acreditam que suas companhias não sobreviverão mais de uma década sem reinvenção estrutural. O dado reforça uma percepção cada vez mais presente no mercado: crescer deixou de ser suficiente.
“Muitas empresas brasileiras amadureceram na capacidade de expandir, mas ainda existe uma fragilidade importante quando falamos de arquitetura empresarial. Em vários casos, o crescimento aconteceu mais rápido do que a estrutura conseguiu acompanhar”, afirma Marcos Koenigkan.
Segundo ele, esse movimento aparece com mais força em empresas familiares e grupos multissetoriais que aceleraram a diversificação nos últimos anos. São companhias que cresceram, ampliaram áreas de atuação e ganharam relevância, mas passaram a conviver com estruturas mais complexas, cadeias decisórias menos eficientes e dependência excessiva de poucos líderes.
A entrada mais intensa da inteligência artificial no ambiente corporativo adiciona uma nova camada a esse cenário. A tecnologia encurta ciclos de decisão, acelera operações e aumenta a pressão por eficiência. Mas também torna mais visíveis falhas internas que, antes, podiam ser absorvidas pelo ritmo mais lento dos processos.
Dados da 28ª Global CEO Survey da PwC mostram que 51% dos CEOs brasileiros já confiam na integração da IA aos processos essenciais das companhias, acima da média global de 33%. Além disso, 34% afirmam que a IA generativa contribuiu diretamente para o aumento de receita nos últimos 12 meses.
“Não adianta implementar inteligência artificial em uma operação que continua desorganizada internamente. A tecnologia amplia eficiência, mas também expõe fragilidades quando a empresa não possui governança e processos maduros”, avalia Koenigkan.
Temas que antes pareciam distantes da realidade de médias empresas ganharam outro peso. Holdings, acordos societários, conselhos consultivos e planejamento sucessório deixaram de ser pautas restritas a grandes corporações. Passaram a fazer parte da agenda de empresários que entenderam que faturamento maior não significa, necessariamente, uma empresa mais preparada.
“O empresário brasileiro começa a perceber que empresa não pode depender exclusivamente do fundador. Quando tudo passa por uma única pessoa, o crescimento deixa de representar segurança e passa a representar vulnerabilidade”, afirma.
A figura do empresário centralizador, que conduz sozinho a expansão do negócio, ainda é forte no Brasil. Mas começa a dividir espaço com uma visão mais voltada à perpetuidade, à governança e à capacidade de adaptação. A empresa que cresce sem processos, sem sucessão planejada e sem clareza societária pode ganhar mercado no curto prazo, mas tende a acumular riscos para o futuro.
O crescimento continua sendo um objetivo central. A diferença é que, em um ambiente mais instável, tecnológico e competitivo, a expansão passou a exigir mais do que ambição comercial. Exige estrutura. Para uma parcela crescente do empresariado brasileiro, o desafio já não é apenas crescer. É continuar relevante quando o próximo ciclo chegar.
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