Os 3 fatores que aumentam o risco de um AVC
Testes simples e de baixo custo podem ajudar a identificar pessoas com maior probabilidade de encarar esse quadro
Foto: peterschreiber.media/Adobe Stock Perda muscular, aperto de mão mais fraco e caminhada lenta foram associados a um maior risco de acidente vascular cerebral (AVC), segundo um amplo estudo publicado em maio na revista científica Stroke, uma publicação da American Heart Association.
A pesquisa, realizada com mais de 480 mil adultos do Reino Unido, mostrou que pessoas com baixa força muscular tinham 30% mais risco de sofrer qualquer tipo de AVC.
Além disso, menor força de preensão manual foi associada a um aumento de 7% nesse risco.
Já entre aqueles que caminhavam mais devagar, o risco era 64% maior em comparação com pessoas de passo acelerado.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores acompanharam os participantes ao longo de quase 15 anos e avaliaram indicadores ligados à chamada sarcopenia, condição caracterizada pela perda de massa e força muscular, mais comum com o envelhecimento.
A força de preensão manual foi considerada baixa quando ficou abaixo de 27 kg nos homens e 16 kg nas mulheres, e o ritmo da caminhada foi informado pelos próprios participantes, que classificaram sua velocidade como lenta, média ou rápida.
“Já havia evidências de que baixa força muscular, lentidão da marcha e sarcopenia estão associadas a pior saúde geral, maior fragilidade e maior risco cardiovascular.
O mérito desse estudo é reforçar essa associação em uma amostra muito grande, com mais de 480 mil adultos, e relacionar esses indicadores funcionais especificamente ao risco de AVC”, avalia o fisioterapeuta João Eduardo de Araujo, professor livre-docente em Fisioterapia Neurofuncional do Adulto da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e coordenador do Laboratório de Neuropsicobiologia e Comportamento Motor da universidade.
A explicação provável é que força muscular e velocidade de marcha não dependem apenas dos músculos, mas refletem também a integração entre cérebro, sistema cardiovascular e capacidade funcional global.
Segundo a neurologista Letícia Januzi, vice-coordenadora do Departamento Científico de Doenças Cerebrovasculares, Neurologia Intervencionista e Terapia Intensiva em Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), a associação não significa necessariamente que a fraqueza muscular cause diretamente um AVC, mas pode indicar um organismo mais vulnerável.
“A baixa força muscular pode refletir pior saúde metabólica, inflamação crônica, menor aptidão cardiorrespiratória e maior carga de doenças crônicas”, explica.
Importância dos indicadores
A chamada força de preensão manual é considerada um indicador simples e barato da função muscular global.
O teste mede a intensidade do aperto da mão por meio de um aparelho chamado dinamômetro e já é usado em áreas como geriatria, fisioterapia e reabilitação, embora ainda não faça parte da rotina da maioria dos check-ups. “Na neurologia mesmo ele ainda não é parte da rotina. Mas o estudo indica que a força de preensão também pode funcionar como um marcador de saúde.
Em pessoas com uma força de preensão reduzida, isso pode acender uma luz amarela ou vermelha para fator de risco cardiovascular”, diz Letícia.
A velocidade da caminhada foi o fator que mais chamou atenção dos pesquisadores.
Segundo o estudo, participantes com a passada mais lenta apresentaram risco até 64% maior de AVC no geral e 74% maior de AVC isquêmico em comparação com aqueles que mantinham um ritmo mais acelerado.
O AVC isquêmico é o tipo mais comum da doença e acontece quando um coágulo bloqueia a passagem do sangue em uma artéria do cérebro, reduzindo a chegada de oxigênio às células cerebrais.
De acordo com a neurologista Carolina Braga, do Centro Especializado em Neurologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o resultado faz sentido porque caminhar depende do funcionamento integrado de diferentes sistemas do organismo. “Para caminhar bem, a pessoa precisa de força muscular, equilíbrio, coordenação, boa função cardiovascular e capacidade respiratória”, explica.
Ela afirma que a marcha é considerada por muitos especialistas uma espécie de “sinal vital funcional” e alterações no ritmo da caminhada podem indicar perda de condicionamento físico e redução da reserva funcional do organismo antes mesmo de limitações mais importantes aparecerem.
“Vale lembrar que o monitoramento domiciliar não substitui a avaliação médica.
Qualquer alteração persistente no ritmo da caminhada ou na capacidade física deve ser discutida com um especialista”, orienta.
Os especialistas ressaltam ainda que a sarcopenia — a perda progressiva de massa muscular — deixou de ser vista apenas como consequência natural do envelhecimento. Hoje, a condição é associada a um maior risco de quedas, perda de independência, hospitalizações e mortalidade.
“Perder massa muscular pode fazer parte do envelhecimento, mas quando essa perda compromete a função, ela passa a ter significado clínico importante”, destaca o professor Araujo.
Vale destacar que, após um AVC, é frequente que a pessoa sofra uma incapacidade permanente ou pelo menos uma incapacidade temporária de longo prazo.
Essa incapacidade pode se traduzir de diferentes formas, a depender da área afetada e da extensão do evento.
Podem ser observados prejuízos motores, cognitivos, emocionais, de linguagem e de deglutição, por exemplo. Daí a importância de entender como evitar o quadro.
Sintomas não devem ser banalizados
A pesquisa mostra uma associação, e não relação direta de causa e efeito. De qualquer maneira, os especialistas defendem que sinais como perda de força, dificuldade para caminhar e piora importante do condicionamento físico não devem ser minimizados.
Na prática, os resultados apontam que testes simples e de baixo custo poderiam ajudar na identificação precoce de pessoas com mais risco de encarar um AVC.
“A força de preensão, por exemplo, pode ser medida em poucos minutos com o dinamômetro, enquanto a velocidade da marcha pode ser avaliada com um cronômetro em pequenos percursos dentro do próprio consultório ou por meio de dispositivos vestíveis, como smartwatches”, sugere Letícia.
A boa notícia é que é possível preservar força muscular e mobilidade com mudanças de hábitos.
Nesse sentido, a recomendação continua sendo manter uma rotina que combine atividade física regular, alimentação equilibrada com ingestão adequada de proteínas, controle das doenças crônicas, sono de qualidade e evitar o tabagismo.
“Costumo dizer que atividade física deve ser prescrita quase como um remédio. Exercícios de força, como musculação, treino funcional e pilates, ajudam a preservar e ganhar massa muscular. Isso não é apenas uma questão estética ou ortopédica: também pode representar uma forma de proteger a saúde do cérebro”, conclui Letícia Januzi.
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