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Maringá,12/05/2026

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Roncos motivam casais a dormirem separados

Pesquisas apontam que a ideia da cama compartilhada está fora da rotina de muita gente

Bianca Barki/
Roncos motivam casais a dormirem separados Divórcio do sono — Foto: Erke Rysdauletov / Unsplash

Uma pesquisa da Academia Americana de Medicina do Sono (AASM) revelou que mais de um terço dos americanos dormem ocasionalmente ou regularmente em quartos separados de seus parceiros.
No Reino Unido, dados comparativos do Sleep Council mostram que em 2020 um em cada seis casais dormia separadamente, o dobro do número registrado em 2009.
O fenômeno ganhou nome em inglês, sleep divorce (ou divórcio do sono), e chegou às conversas como tendência, como solução prática, como coisa de gente madura que entende que relacionamento saudável não precisa de romance à meia-noite.
Os motivos são concretos e não merecem ironia: ronco, apneia, horários incompatíveis, temperaturas corporais diferentes, insônia de um que acorda o outro.
Uma pesquisa global da ResMed de 2025 com mais de 30 mil pessoas em 13 países mostrou que 32% dos participantes apontam o ronco ou a respiração barulhenta do parceiro como fatores que atrapalham diretamente o sono.
Sono ruim tem custo real na saúde, no humor e na capacidade de tolerar o outro no dia seguinte.
Quem já passou semanas acordando três vezes por noite sabe que o romantismo da cama compartilhada tem um limite bastante físico.
Mas o que a psicanálise observa nesse fenômeno vai além da qualidade do sono, sem com isso romantizar o sofrimento de quem ronca ou patologizar quem decide dormir em paz.
O que chama atenção é o vocabulário escolhido para nomear a prática: divórcio.
Não separação temporária, não arranjo prático, não solução logística. Divórcio. A palavra carrega o peso simbólico de uma ruptura, e o fato de ela ter sido adotada espontaneamente diz algo sobre o que a cultura ainda associa à cama conjugal, um espaço que não é só funcional, mas onde se deposita algo da ordem do vínculo, da presença, da proximidade que não precisa ser sexual para ser significativa.
Freud não escreveu sobre sleep divorce, obviamente, mas escreveu sobre o corpo como superfície de inscrição do desejo e da angústia, e sobre a forma como a proximidade física organiza algo no psiquismo que a distância, mesmo justificada, reorganiza de outro jeito.
Dormir ao lado de alguém é uma das formas mais primitivas de confiar, um estado de vulnerabilidade que o sono impõe e que o outro testemunha sem que nenhum dos dois esteja consciente para administrar a própria imagem.
Quando esse arranjo muda, mesmo por motivos práticos, algo se desloca, e esse deslocamento pode ser absolutamente saudável ou pode ser o sinal de um afastamento que já vinha acontecendo antes de o ronco virar o argumento oficial.
Não há resposta universal aqui, e qualquer profissional que a ofereça merece desconfiança.
O que vale perguntar, para cada casal que considera essa mudança, é se a separação da cama está resolvendo um problema de sono ou também está tornando mais fácil não resolver outro.




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