Como saber se você é um ‘falso magro’?
Pessoas com aparência magra podem ter excesso de gordura visceral e maior risco de doenças metabólicas e cardiovasculares
Um corpo magro por fora não é necessariamente saudável Foto: molenira/Adobe Stock Nem sempre estar dentro do peso significa estar saudável. Pessoas com aparência magra e IMC (índice de massa corporal) dentro da faixa considerada normal podem ter excesso de gordura corporal, baixa massa muscular e alterações metabólicas importantes, num quadro popularmente conhecido como “falso magro”. Na prática, significa que o corpo pode parecer saudável por fora, mas apresentar alterações importantes por dentro.
“Em medicina, chamamos esse quadro de obesidade de peso normal”, explica o endocrinologista Marcio Mancini, chefe do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).
Segundo ele, esse perfil está associado a um aumento do risco de doenças como diabetes, hipertensão e distúrbios cardiovasculares. Isso ocorre porque a gordura visceral, aquela que se acumula na região do abdômen e entre os órgãos, é altamente inflamatória e metabolicamente ativa.
A endocrinologista Cintia Cercato, diretora do departamento de obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), reforça que o problema muitas vezes passa despercebido. “O índice de massa corporal normal pode dar uma falsa impressão de que está tudo bem, mas nem sempre isso é verdade.
O que realmente importa é a qualidade da composição corporal e a distribuição da gordura como um todo”, ensina.
Quando essa gordura se infiltra em órgãos como o fígado, por exemplo, o risco de complicações aumenta, inclusive com o desenvolvimento de esteatose hepática. Na maioria dos casos, essa condição não causa sintomas no início e, por isso, muita gente nem sabe que tem.
Mas, com o tempo, a esteatose hepática pode levar à inflamação do fígado e elevar o risco de problemas mais sérios (como fibrose, cirrose e até câncer), além de estar associada a doenças como diabetes e alterações lipídicas.
O cardiologista Leandro Costa, do Centro Especializado em Cardiologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz reforça que o risco cardíaco não depende apenas do peso corporal.
“Trata-se de um mosaico de fatores, mesmo em pessoas magras. Hipertensão, colesterol elevado, sedentarismo, má qualidade do sono, estresse, tabagismo e consumo de álcool são elementos que, combinados, aumentam a inflamação do organismo e favorecem eventos como infarto e AVC”, descreve.
Isso significa que uma pessoa com peso normal e considerada magra pode, sim, ter uma probabilidade significativa de enfrentar doenças do coração.
Em alguns casos, esse risco pode se aproximar daquele observado em indivíduos com obesidade, especialmente quando há acúmulo de gordura visceral e resistência à insulina.
Outro ponto importante é o sedentarismo. Uma pessoa magra, mas fisicamente inativa, pode apresentar pior saúde metabólica do que alguém acima do peso, porém ativo.
“A capacidade funcional, ou seja, o quanto o indivíduo consegue se exercitar, é um preditor independente de redução de eventos cardiovasculares”, afirma o cardiologista Costa.
Como identificar o quadro?
De acordo com os especialistas, a avaliação de um indivíduo magro vai além do peso mostrado na balança. Medidas simples, como a circunferência abdominal, já ajudam a levantar suspeitas.
Exames de sangue para avaliar glicemia, colesterol e triglicérides são fundamentais, assim como testes de composição corporal, como bioimpedância ou densitometria óssea. Em alguns casos, exames de imagem podem ser necessários para investigar se existe acúmulo de gordura no fígado.
Além disso, sinais clínicos e funcionais devem ser levados em consideração.
“Uma pessoa com baixa força muscular, cansaço frequente e dificuldade em atividades simples podem indicar perda de massa magra, condição conhecida como sarcopenia, que agrava ainda mais o risco metabólico. Existem testes simples, feitos em consultório, que nos ajudam a identificar o quadro”, reforça Mancini.
Não há uma única explicação para alguém ser magro e, ainda assim, apresentar riscos metabólicos. “As causas são multifatoriais.
Existe uma influência genética importante, mas o estilo de vida tem papel central”, afirma Mancini. Segundo o especialista, alimentação rica em ultraprocessados, excesso de açúcar e gordura, sedentarismo e estresse contribuem para esse desequilíbrio, mesmo sem ganho de peso evidente.
A boa notícia é que o quadro pode ser revertido e o foco não deve ser o peso na balança. “O mais importante é melhorar a composição corporal”, afirma Cercato.
Isso inclui reduzir a gordura visceral e aumentar a massa muscular, principalmente por meio de exercícios de resistência e força, além de uma alimentação equilibrada, com adequado consumo de proteínas.
Em alguns casos, como na presença de complicações metabólicas, pode ser necessário o uso de medicamentos para diabetes e obesidade (como as canetas), mas em doses menores. Isso porque esses pacientes tendem a responder melhor às intervenções de estilo de vida — então essas estratégias devem ser prioridade.
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