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Maringá,01/05/2026

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O você precisa saber antes de usar canetas para obesidade

Medicamentos como Wegovy e Mounjaro demandam indicação clínica e acompanhamento especializado

New England Journal of Medicine/ Isabela Moya
O você precisa saber antes de usar canetas para obesidade Ozempic, Mounjaro e Wegovy estão entre os principais tratamentos para diabetes tipo 2 e obesidade. Foto: K KStock/Adobe Stock

Apesar de apelidadas popularmente de “canetas emagrecedoras”, Mounjaro, Wegovy e Ozempic são medicamentos, com todas as implicações que isso carrega: indicação clínica precisa, forma de uso e dosagem definidas, além de efeitos colaterais e contraindicações que precisam ser considerados.
Longe de serem uma “pílula mágica”, essas canetas representam uma ferramenta terapêutica poderosa — desde que usadas corretamente.
Por isso, separamos 13 pontos essenciais que toda pessoa que está em tratamento (ou pretende começá-lo) deve saber. 
1- O que são esses medicamentos?
Os medicamentos pertencem ao grupo dos análogos de GLP-1 e GIP — moléculas sintéticas que imitam hormônios naturalmente liberados pelo corpo após as refeições.
Esses hormônios têm duas funções centrais: estimular a produção de insulina e promover a sensação de saciedade. É por isso que se mostram eficazes tanto no controle do diabetes tipo 2 — doença caracterizada pela produção insuficiente ou pela resistência à insulina — quanto no tratamento da obesidade. Em relação a esta, a saciedade prolongada leva o paciente a consumir menos calorias ao longo do dia, favorecendo o emagrecimento, que depende fundamentalmente do déficit calórico (consumir menos calorias do que se gasta).
As canetas facilitam o processo de emagrecimento, mas não substituem escolhas alimentares adequadas nem a prática de atividade física. A própria bula dos medicamentos diz que seu uso deve ser associado a uma dieta hipocalórica e a exercícios físicos regulares.
2- Mounjaro, Ozempic, Wegovy... qual a diferença?
O mercado conta atualmente com três princípios ativos desses medicamentos. A pioneira foi a liraglutida, comercializada sob os nomes Saxenda e Victoza.
Em seguida, foi desenvolvida a semaglutida — substância ainda mais eficaz e responsável por popularizar as canetas em escala global. A semaglutida é vendida sob dois nomes: Ozempic e Wegovy. Embora compartilhem o mesmo princípio ativo, os produtos têm indicações distintas em bula: o primeiro é voltado para tratamento de diabetes e o segundo, obesidade.
Há ainda a tirzepatida, conhecida comercialmente como Mounjaro, que difere das anteriores por ser um duplo análogo: além de imitar o hormônio GLP-1, também é um agonista de GIP, outro hormônio envolvido na regulação metabólica.
3- Para quem as canetas são indicadas?
Conforme especificado em bula, as canetas têm indicação clínica para três situações:
diabetes tipo 2;
obesidade, definida por um Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 30 kg/m²; e
sobrepeso com ao menos uma comorbidade associada, quando o paciente apresenta IMC acima de 27 kg/m² acompanhado de doenças relacionadas ao excesso de peso, como hipertensão, gordura no fígado, doença renal, artrose ou apneia do sono.
Seguir essas indicações não é uma formalidade. Foi nesses cenários que os medicamentos foram testados em estudos clínicos, com evidências robustas sobre eficácia e segurança.
Para usos fora dessas indicações, não há dados científicos suficientes que atestem que os benefícios superam os riscos.
4- Crianças podem usar?
Especialistas acreditam que, caso se provem seguras, as canetas poderão ser a primeira opção de tratamento para obesidade e diabetes em crianças e adolescentes no futuro.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso de Mounjaro para o tratamento do diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes de 10 a 17 anos. Também foi aprovado o uso de Wegovy (semaglutida) e Saxenda (liraglutida) para o tratamento de obesidade a partir dos 12 anos.
A aplicação das canetas é recomendada para crianças e adolescentes com quadros graves de obesidade — seja pelo excesso de peso ou por comorbidades — e que já tentaram o tratamento com mudança de estilo de vida, mas sem resultados importantes.
Os estudos com Wegovy e Saxenda mostram resultados em crianças muito parecidos com os observados em adultos em termos de efetividade e efeitos colaterais. As reações adversas mais comuns também são as mesmas.
5- E idosos?
Existem peculiaridades para os pacientes na terceira idade. Se usado inadvertidamente, o medicamento pode favorecer a sarcopenia (perda progressiva e generalizada de massa, força e função muscular), aumentando o risco de quedas e fraturas. Por isso, antes do uso das canetas, a população acima de 60 anos precisa passar por avaliação médica especializada, monitoramento nutricional e análise da funcionalidade, verificando sua composição corporal e mobilidade.
6- Efeitos na relação com a comida
Um dos efeitos mais celebrados por especialistas e pacientes é a redução do "food noise", ou ruído alimentar, fenômeno em que a pessoa passa boa parte do dia com pensamentos recorrentes sobre comida, o que compromete a qualidade de vida e dificulta o emagrecimento. Na prática clínica, observou-se que esses medicamentos atuam no centro de recompensa do cérebro, contribuindo para uma relação mais equilibrada com a alimentação.
Por outro lado, o acompanhamento nutricional é essencial para evitar o extremo oposto: ficar horas sem comer porque a fome desapareceu. Esse comportamento prejudica a saúde e pode criar condições para um reganho de peso acelerado caso o paciente interrompa o uso da caneta. Médicos alertam que, se o paciente estiver totalmente sem fome, pode ser sinal de que a dose está alta demais — e o ajuste deve ser feito com orientação profissional.
7- Benefícios para o coração
Em um estudo publicado pela Novo Nordisk (farmacêutica que desenvolveu a semaglutida) no New England Journal of Medicine, O Wegovy demonstrou reduzir o risco de problemas cardíacos graves independentemente da quantidade de peso perdida pelo paciente. Em outras palavras, o estudo indica que a semaglutida ajuda a proteger o sistema cardiovascular mesmo entre pacientes que não emagreceram durante o tratamento. O medicamento promove uma redução de 20% no risco de MACE — sigla para eventos cardiovasculares adversos graves, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC) não fatais — em pacientes sem diabetes e com doença cardiovascular estabelecida.
8- Dose: nem sempre ‘quanto mais, melhor’
A dosagem não segue uma regra universal — apenas um médico é capaz de determinar a dose mais adequada para cada caso. O padrão é iniciar pelo nível mais baixo e avançar gradualmente ao longo do tratamento, sem aumentar mais de uma dose por semana.
A meta não é chegar à dose mais alta, mas manter o paciente na menor dose eficaz possível. Enquanto o tratamento estiver produzindo os resultados esperados, em geral não há razão para escalar a dosagem. O acompanhamento médico é indispensável durante todo o processo, e não apenas no início, já que o direcionamento do tratamento varia de acordo com a resposta do paciente. Além disso, a venda das canetas em farmácias é condicionada à apresentação de receita médica. O especialista mais indicado para prescrever e monitorar o tratamento é o endocrinologista.
9- Se eu parar, vou recuperar o peso?
Como explicamos na reportagem disponível aqui, para cogitar a interrupção, é preciso, em primeiro lugar, certificar-se de que o peso saudável já foi alcançado e que as comorbidades estão controladas. No geral, ao atingir o peso desejado, o ideal é manter o medicamento por mais um tempo, diminuindo as doses ou espaçando-as. Esse é o chamado período de manutenção, em que o paciente pode perceber se é capaz de manter o peso mesmo com a redução do efeito do remédio. Caso o número na balança suba, é provável que a pessoa não esteja pronta para o “desmame”. A condução desse processo e sua duração devem ser definidas pelo profissional de saúde.
Mesmo que o uso das canetas seja interrompido, o tratamento é para sempre, dizem os especialistas, mantendo mudanças comportamentais e um estilo de vida saudável mais regrado. Em alguns casos, o médico pode recomendar um medicamento mais acessível após a interrupção da caneta.
10- Forma de aplicação
A forma de administração é injetável, com aplicações semanais na região abdominal, no braço ou na coxa. Dois cuidados são indispensáveis: cada aplicação deve ser feita com uma agulha diferente e os dispositivos precisam ser mantidos refrigerados entre 2 °C e 8 °C, sem nunca serem congelados.
Existe ainda a versão em comprimido diário. No Brasil, o único produto nesse formato aprovado até o momento é o Rybelsus (semaglutida).
11- Efeitos colaterais
Os efeitos colaterais mais frequentes são gastrointestinais:
náusea, vômito, constipação, diarreia, indigestão e refluxo. Esses sintomas tendem a aparecer sobretudo no início do tratamento ou após o aumento de dose. Quando mais severos, eles podem elevar indiretamente o risco de complicações renais.
Outro efeito a ser monitorado é a hipoglicemia (queda brusca nos níveis de açúcar no sangue), especialmente em pacientes com diabetes que fazem uso combinado de outros medicamentos, como a insulina.
Há ainda efeitos adversos menos discutidos: cansaço, dor de cabeça, tontura, taquicardia leve e formação de cálculos na vesícula biliar. Em casos mais raros, porém mais graves, há o risco de pancreatite. Estudos recentes também têm apontado uma possível correlação entre o uso das canetas e o desenvolvimento de uma doença ocular que, em casos extremos, pode levar à perda de visão. No entanto, a relação de causa e efeito ainda não foi cientificamente comprovada.
Diante de qualquer efeito colateral intenso ou persistente, a orientação é clara: procure um médico imediatamente.
12- Contraindicações
As canetas são contraindicadas para pessoas com:
diabetes tipo 1;
histórico de doença renal ou pancreática;
histórico pessoal ou familiar de tumor na tireoide;
histórico pessoal ou familiar de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM-2).
Mulheres grávidas e lactantes também não devem fazer uso dos medicamentos, uma vez que os efeitos sobre o bebê são desconhecidos. Quem planeja engravidar deve interromper o tratamento ao menos dois meses antes de começar a tentar a gestação.
13- Afetam a fertilidade?
O impacto das canetas na fertilidade não é totalmente claro e requer mais estudos. O que já se sabe é que o emagrecimento, independentemente do tratamento, favorece a fertilidade feminina e masculina, tornando os óvulos e espermatozoides mais saudáveis. Um ponto de atenção específico para pacientes em tratamento com o Mounjaro é não depender exclusivamente da pílula anticoncepcional, pois a tirzepatida interfere na sua eficácia. Nesses casos, a orientação é optar por outros métodos durante o tratamento, como preservativo, DIU, implante subdérmico, anel vaginal ou adesivo contraceptivo.




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