Irã promete vingança pela morte de seu líder
Trump ameaça resposta 'nunca vista' em caso de agravamento da retaliação
Foto: AHMAD AL-RUBAYE / AFP O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou neste domingo que a República Islâmica tem "o direito e o dever legítimo" de vingar a morte do líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, morto no sábado durante o ataque conjunto lançado por EUA e Israel.
A declaração do presidente iraniano ocorre em meio a uma nova troca de bombardeios nos céus do Oriente Médio, envolvendo as forças da nação persa e do Estado judeu, com impactos confirmados no território de países vizinhos — mesmo após a ameaça do presidente americano, Donald Trump, de usar uma "força nunca antes vista" caso Teerã decida aprofundar o conflito.
— A República Islâmica do Irã considera o derramamento de sangue e a vingança contra os perpetradores e comandantes deste crime histórico como seu dever e direito legítimo, e cumprirá essa grande responsabilidade e esse dever com todas as suas forças — afirmou Pezeshkian em mensagem divulgada pela mídia estatal iraniana.
A linha adotada pelo presidente é a mesma reproduzida pela cadeia de comando do regime.
O chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, Ali Larijani, disse que novos ataques estavam sendo preparados em uma publicação na rede social X neste domingo. Ele declarou que o país atingirá os EUA e Israel com uma força inédita.
"Ontem, o Irã lançou mísseis contra os Estados Unidos e Israel, e eles causaram danos. Hoje, nós os atingiremos com uma força que eles nunca experimentaram antes", escreveu a autoridade iraniana.
A retórica iraniana continua combativa mesmo após os alertas de Trump sobre a possibilidade de uma intensificação do conflito.
Em entrevista o presidente americano já havia dito que está pronto para um conflito rápido, de poucos dias, ou uma guerra prolongada. Em um post na Truth Social, durante a madrugada de domingo, ele fez uma nova advertência.
"O Irã acaba de declarar que vai atacar com muita força hoje, mais forte do que jamais atacou antes. É MELHOR QUE NÃO FAÇAM ISSO, PORQUE SE FIZEREM, NÓS OS ATINGIREMOS COM UMA FORÇA NUNCA VISTA ANTES! Obrigado pela atenção!", escreveu Trump.
A troca de ameaças pouco alterou a realidade no terreno, onde novos bombardeios foram registrados durante a madrugada e a manhã deste domingo.
Israel anunciou novos ataques extensivos contra Teerã e outros alvos no país. Em contrapartida, a Guarda Revolucionária Iraniana voltou a disparar contra uma série de alvos ligados aos EUA em países da região e contra território israelense, dando continuidade ao caos regional que forçou a ativação de sistemas de defesa antiaérea, fechamento de aeroportos e alertas à população civil.
Ataques direcionados a uma base americana em Erbil, no Iraque, foram confirmados por fontes locais neste domingo, que mencionaram a interceptação dos projéteis. O Reino Unido anunciou que bases no Chipre e no Bahrein foram alvos de ataques, mas não registraram feridos.
Mísseis e drones iranianos voltaram a violar os espaços aéreos de países como Arábia Saudita, Catar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos. Explosões foram ouvidas sobre Riad, enquanto interceptações de projéteis foram confirmadas por militares em Manama — onde a Embaixada dos EUA recomendou que cidadãos americanos evitassem se hospedar em hotéis, afirmando que poderiam ser alvo de ataques, após o bombardeio do hotel de luxo Crowne Plaza. Os Emirados Árabes Unidos afirmaram que ataques iranianos contra aeroportos em Abu Dhabi e Dubai mataram uma pessoa e feriram ao menos 11 desde o início da retaliação iraniana.
Os ataques iranianos deste domingo também se estenderam a Omã — país do Golfo que ainda não tinha sido atingido diretamente, e que cumpriu um papel de mediador nos diálogos indiretos entre os EUA e o Irã nas últimas semanas. Um porto do país e um navio-petroleiro que estava próximo da costa foram bombardeados, segundo uma agência de notícias estatal. Ao todo, ao menos cinco pessoas ficaram feridas.
Embora Teerã tenha anunciado no sábado que todos os alvos relacionados aos EUA e Israel seriam alvos legítimos de retaliação, grande parte dos países árabes e de maioria muçulmana da região foram firmes em condenar as ações iranianas como violações de soberania.
Em alguns casos, como no dos Emirados, comunicados foram emitidos apontando a possibilidade de uma resposta militar — o que se converteria em mais poder de fogo voltado contra o Irã.
Fontes ouvidas pela rede catari Al-Jazeera afirmaram que o Conselho de Cooperação do Golfo, aliança política formada por Bahrein, Kuwait, Omã, Catar, Arábia Saudita e Emirados, convocou uma reunião de emergência de chanceleres para este domingo.
As autoridades iranianas tentam evitar uma escalada com os vizinhos regionais sem interromper a campanha retaliatória. Em uma mensagem por escrito, o presidente iraniano caracterizou o ataque americano-israelense ao país como uma "declaração aberta de guerra contra os muçulmanos", e particularmente os xiitas.
"Este evento trágico é a maior provação que o mundo islâmico enfrenta hoje", afirmou o líder iraniano.
Sob fogo iraniano, poucos países de maioria islâmica fizeram mais do que pedir contenção ou oferecer uma mediação para superar a crise pela via diplomática — caso da Indonésia, ainda no sábado.
O maior apoio ao Irã partiu de aliados como o movimento Hezbollah, do Líbano, que neste domingo prometeu "confrontar" as agressões, e de países adversários do Ocidente. China, Coreia do Norte e Rússia condenaram tanto os ataques quanto a morte de Khamenei, em declarações separadas. O presidente russo, Vladimir Putin, classificou o assassinato do aiatolá como uma "violação cínica da moralidade e da lei internacional".
Protestos e ataques a representações americanas
A confirmação da morte de Khamenei no sábado provocou manifestações de apoio à ação militar e levou também a protestos. No Paquistão, ao menos nove pessoas morreram durante uma manifestação em frente ao consulado dos EUA em Karachi.
Centenas de manifestantes tentaram invadir o prédio e foram dispersados com gás lacrimogêneo. Vídeos divulgados nas redes sociais mostram jovens quebrando janelas do edifício enquanto a bandeira americana tremulava sobre o complexo.
Em uma gravação, um manifestante afirma que o grupo tentava incendiar o consulado em resposta à morte do líder iraniano. Equipes de resgate disseram à AFP que os corpos das vítimas foram levados a hospitais após os confrontos. Protestos também foram registrados em Lahore.
No Iraque, centenas de pessoas se reuniram nas proximidades da Zona Verde de Bagdá, área fortemente protegida que abriga prédios do governo e a embaixada dos Estados Unidos. Jornalistas da AFP relataram forte presença de segurança enquanto manifestantes tentavam avançar em direção ao complexo diplomático. Alguns participantes lançaram pedras contra as forças de segurança, que responderam com gás lacrimogêneo. Um manifestante que se identificou como Ali disse à AFP que a morte de Khamenei “feriu” muitos na região e que o protesto exigia a retirada das tropas americanas do Iraque.
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