Walber Guimarães Junior
SÉRIE ELEIÇÕES BRASILEIRAS - A falência do presidencialismo de coalisão.
Capítulo 2
Na mesma frequência da Copa do Mundo, alternamos sonhos com o título mundial e com a eleição de um presidente que coloque o Brasil no pódio do desenvolvimento, todavia, assim como nas fases finais da competição, nossa frustração tem virado pesadelo, independente do ungido das urnas ser ou não o nosso preferido. Definitivamente, não dá para ser feliz com as regras e variáveis do nosso falido presidencialismo de coalisão.
As dezenas de legenda disputando as eleições proporcionais resultam em bancadas múltiplas no Congresso e, nem mesmo internamente, os partidos são homogêneos, tornando a missão de construir maioria para garantir maioria parlamentar um sacrifício imenso que consome energia, cargos públicos e recursos ilimitados, como pedágio, pagos periodicamente, para garantir a desejada governabilidade.
Custo absurdo que consome nossos impostos e a nossa paciência ao ver nossos projetos virarem moeda de troca das barganhas partidárias.
A questão é agravada pelo tecido fragmentado das estruturas partidárias, sendo raras as siglas com alguma identidade, exigindo que a unidade seja construída apenas pelo metal.
Praticamente todas as legendas médias e grandes possuem lado A e lado B, ponta e centro, radicais e moderados, cada grupo com uma etiqueta de preço expressa em emendas parlamentares.
Mesmo cacifados pela aprovação majoritária expressa pelas urnas, nenhum presidente consegue impor seu estilo e suas ideias sem as concessões, muito acima da linha ética, que lhe permita construir os caminhos necessários para implantar seus projetos.
O presidente eleito é apenas a peça principal presa nas engrenagens do nosso modelo político.
É impossível sobreviver, acima da linha da decência, nas intermináveis negociações com legendas e lideranças que consomem dedos, anéis, mãos e braços na construção da agenda da governabilidade.
Pressionados pelos saldos de campanha ou na organização do caixa para a seguinte, os partidos e suas lideranças precisam de instrumentos de poder que resultem em liquidez e bons negócios aos parceiros e financiadores que não aplicam recursos, sem imaginar contrapartida adequada que retornem os investimentos eleitorais com a devida margem de lucro, sempre às custas do erário público.
Este desenho é o embrião de uma estrutura corrompida, pesada e suficientemente incompetente a ponto de impedir que o Brasil enfrente seus reais problemas.
Simplesmente é impossível um governo focado nos interesses coletivos porque isto resulta em seguidas derrotas parlamentares e contínua revisão dos prazos e projetos de qualquer governo.
Não tem santo de direita ou de esquerda porque este jogo é para profissionais atentos ao processo de negociação, prioridade absoluta para qualquer projeto de poder, com pouca interferência da idoneidade ou aptidão do líder eleito.
Briguem com os pais ou avós, filhos ou amigos, desclassifiquem o adversário, louco ou ladrão, mas é preciso perceber que não são nomes que resolverão nosso problema, mas a consciência de que um rearranjo das regras é que podem nos recolocar no caminho da dignidade na política.
O presidente eleito precisa se acertar com diversas siglas, quatro ou cinco no mínimo e, dentro de cada uma delas, com as lideranças mais expressivas que não trafegam com o anel da fidelidade porque, se necessário, se trocam de partido com mesma facilidade que alternam a gravata do dia seguinte.
Enquanto a sociedade civil não entender este processo com exatidão, estamos fadados a persistir no submundo das republiquetas menores, afetas aos interesses de pequenos grupos que constituem a elite política e econômica do país, conjuntos muito próximos entre si, e sem enfrentar nossas mazelas que, via de regra, são exatamente as mesmas nas últimas três décadas.
Déficit fiscal, custo Brasil, inseguranças, educação de baixa qualidade e incapacidade de atender em plenitude as demandas da saúde pública.
Definitivamente, a solução brasileira até passa pelas urnas, mas exige que dela resulte alguém descomprometido com o projeto pessoal ou partidário de poder, porque transitar pelos caminhos necessários significa desagradar a imensa maioria dos parceiros imprescindíveis nas disputas eleitorais.
De maneira objetiva; não há compatibilidade entre o caminho a ser percorrido e a popularidade necessária para qualquer projeto de poder.
Reforma política é imperativo como start para um necessário processo de revisão das relações entre os poderes, resultando em credibilidade institucional e, principalmente, decência na utilização dos recursos públicos.
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