Mensagem de cada DIA!
O julgamento
A luz não vinha do sol, nem de lâmpadas. Era uma claridade amena, que parecia brotar de paredes invisíveis. Iluminava um homem sentado em um banco.
Ele não sabia se prestava contas em um tribunal comum ou na antessala da eternidade.
Se era tudo real ou se era o peso de uma noite mal dormida.
Considerava-se um homem bom. Era senso comum no trabalho, no clube, nas mesas de bar.
Recebera homenagens, sorrisos de gratidão. Mas ali, naquele silêncio quase divino, percebeu que uma engrenagem havia mudado dentro de si.
A boca já não obedecia aos velhos filtros da conveniência.
A vaidade, que sempre fora seu melhor terno, havia sumido.
Perdera, de repente, a capacidade de mentir.
E ele foi se desnudando.
Vestia o avental da caridade, mas confessou que nunca se importara de fato com a fome alheia.
Na vida pública pregara a honestidade e o bem comum.
Enquanto isso, entre quatro paredes havia o pagamento silencioso de propinas.
Na igreja, pagava o dízimo e rezava em voz alta.
No fundo, eram moedas de troca diante do desejo de garantir seu lote no paraíso.
Uma a uma, suas máscaras foram caindo.
Não era o marido fiel. Nem o cidadão exemplar.
A névoa parecia ficar mais densa, cobrando as sombras que ele guardava.
Seus atos de bondade, que tantos elogios renderam, eram investimentos no próprio ego.
O homem pesou as coisas boas e as ruins da sua vida e suspirou, sentindo o peito vazio de qualquer ilusão.
Olhou para as próprias mãos, aparentemente limpas, mas tão culpadas.
Não houve batida de martelo ou trombetas ecoando.
Apenas o silêncio que foi se tornando mais e mais pesado, até que a claridade começou a piscar, como uma lâmpada prestes a queimar.
O homem fechou os olhos, esperando a sentença, ou talvez apenas o toque do despertador na mesa de cabeceira, sem saber se acordaria na sua cama macia ou se já estava, para sempre, condenado a si mesmo.
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