OPINIÃO & OPINIÃO
Escolas precisam rever a exposição infantil nas redes sociais
Escolas e famílias ampliam o debate sobre privacidade, proteção da imagem e os impactos da superexposição infantil nas redes sociais
Com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital há três meses em vigor no Brasil, é importante que famílias e escolas discutam sobre a exposição excessiva da imagem de crianças nas redes sociais, muitas vezes naturalizada no cotidiano, mas que traz impactos importantes para desenvolvimento, privacidade e segurança.
E nada mais oportuno para trazer o assunto à tona como um mês de grandes eventos como Copa do Mundo e Festa Junina e de uma importante decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que regulamenta atividades de crianças e adolescentes em plataformas digitais, prevendo a necessidade de alvarás judiciais para atividades artísticas e participação em conteúdos publicados em perfil próprio, de responsáveis ou de terceiros.
Nos últimos anos, a presença das crianças nas redes sociais deixou de acontecer apenas de forma indireta. Hoje, muitas já crescem com a própria imagem amplamente compartilhada, expostas em vídeos, fotos, rotinas familiares, festas, viagens, momentos íntimos e até situações de vulnerabilidade emocional.
Em alguns casos, antes mesmo de terem idade para compreender o alcance dessas publicações.
E essa é uma discussão que atravessa diretamente a educação.
Na prática escolar, já é possível perceber impactos relacionados à forma como crianças e adolescentes se enxergam, se relacionam e constroem sua autoestima em um ambiente cada vez mais mediado pela lógica da exposição constante. A necessidade de validação, a busca por curtidas, a comparação permanente e a dificuldade em estabelecer limites entre vida privada e vida pública aparecem com frequência nas conversas, conflitos e dinâmicas escolares.
O debate também chama atenção para a diferença entre registrar a infância e transformar a infância em conteúdo. Nem toda publicação representa um problema, mas a frequência, o alcance e a ausência de reflexão sobre essas exposições merecem atenção.
Muitas vezes, as imagens são compartilhadas de forma afetiva, espontânea e sem qualquer intenção negativa. Ainda assim, a internet não funciona dentro da lógica da intimidade.
Uma foto publicada hoje pode circular por anos, ser retirada de contexto, compartilhada sem controle ou até utilizada de maneiras inadequadas. Além disso, existe uma questão que ainda aparece pouco nas discussões, que é o direito da própria criança de decidir, no futuro, como deseja construir sua presença digital.
Nos últimos anos, a escolha da equipe com a qual trabalho foi reduzir de forma significativa a exposição da imagem das crianças em seus canais institucionais, especialmente em relação à publicação de rostos e identificação dos estudantes.
Não se trata de uma regra absoluta ou de uma proibição, mas de uma escolha pedagógica alinhada à ideia de proteção, respeito à infância e construção consciente da relação com o ambiente digital.
A escola também já adotava um modelo de autorização de uso de imagem separado do contrato educacional, prática que passou a ser reforçada pelas novas diretrizes do ECA Digital neste ano.
Mais do que uma adequação jurídica, o tema passou a fazer parte das conversas sobre cidadania digital, convivência e responsabilidade coletiva dentro da escola. Afinal, discutir tecnologia na educação não envolve apenas tempo de tela ou acesso às plataformas.
Também exige refletir sobre privacidade, autonomia, pertencimento, identidade e os impactos emocionais da exposição constante.
Entendo a educação digital como parte da formação integral dos estudantes.
E isso significa ajudar crianças e adolescentes a desenvolverem uma relação mais crítica, equilibrada e consciente com o universo on-line, mas também convidar os adultos a revisarem os próprios comportamentos nesse ambiente.
Mediação digital não acontece apenas quando uma criança utiliza um celular. Ela também acontece quando adultos decidem o que publicar, o que expor e quais limites precisam existir entre memória, afeto e superexposição.
O debate proposto pelo ECA Digital ajuda justamente a deslocar essa conversa do campo do controle para o campo da proteção e da responsabilidade compartilhada. A escola tem um papel importante nesse processo ao promover espaços de diálogo com estudantes e famílias sobre cidadania digital e uso consciente das redes. Mas essa construção depende também da participação ativa dos adultos responsáveis.
Mais do que perguntar se crianças devem ou não estar nas redes sociais, talvez a questão mais importante seja outra: que relação estamos ensinando que elas tenham com a própria imagem, com a privacidade e com a vida on-line? Crescer conectado não deve significar crescer permanentemente exposto.
Ana Paula Yazbek — mestre em educação pela USP e diretora do espaço ekoa
COMENTÁRIOS