Médicos começam a indicar canetas para tratar alcoolismo.

Especialistas dizem que mais estudos são necessários para, de fato, ratificar o uso desses medicamentos.

Mariana Rosário
Médicos começam a indicar canetas para tratar alcoolismo. Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo

Utilizados em larga escala para controle de obesidade e diabetes, medicamentos análogos e agonistas do GLP-1 como a semaglutida e a tirzepatida, que ficaram popularmente conhecidas como “canetas emagrecedoras” têm sido avaliados por cientistas e médicos para um novo uso: o controle de consumo de álcool e drogas.
Ao menos é isso que indicam alguns estudos recém-publicados em importantes periódicos científicos.
Diante de alguns achados, especialistas dentro e fora do Brasil começam a usar esses medicamentos como alternativa para tratamento de pacientes, no chamado uso off-label, fora da bula de indicação e permitido na prática médica.
Uma das pesquisas mais recentes nesse sentido foi publicada no British Medical Journal (BMJ) e avaliou a saúde de 600 mil pacientes veteranos das Forças Armadas dos EUA com diabetes tipo 2.
O desfecho indicou que o uso desses novos medicamentos reduziu o risco de desenvolver transtornos de abuso de álcool, cocaína, nicotina e opioides.

Outra análise, publicada no periódico The Lancet, em 2024, avaliou usuários de semaglutida ao longo de 26 semanas para tratamento para transtorno de uso de álcool de moderado a grave.
O grupo de 108 pessoas foi controlado com medicamento placebo (de efeito inócuo).
Quem usou o medicamento de classe GLP-1 teve redução de 41% nos dias de consumo excessivo de álcool. Quem usou placebo apresentou queda de 26%.
— Os dados sobre os agonistas de GLP-1 para o tratamento do alcoolismo são muito, muito, promissores.
. E, de certa forma, isso não surpreende — afirmou Nora Volkov, diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (NIDA), ao longo de uma reunião do Fellowship para cobertura de saúde da Universidade de Harvard. — O álcool contém muitas calorias, quase tantas quanto a gordura. Portanto, é uma fonte de energia.
Assim, se esses medicamentos conseguem inibir o impulso de consumir alimentos altamente calóricos, parece lógico que também funcionem para o álcool.
A Lilly, desenvolvedora responsável pela tirzepartida , ciente dessa associação, toca dois estudos para avaliação de uma molécula experimental da mesma classe, chamada brenipatide, para transtorno por uso de álcool. O resultados devem ser conhecidos em 2028.
No consultório
Especialistas são unânimes em dizer que mais estudos são necessários para, de fato, ratificar o uso desses medicamentos na prática clínica do tratamento de vícios, mas alguns usos off-label já são feitos dentro e fora do Brasil.
— Há muito uso off-label, mas esse uso tem que ser selecionado, é preciso conhecer o diagnóstico do paciente. E só se usa quando o que tem uso em bula não funciona— diz Dartiu Xavier, professor de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e um dos principais pesquisadores sobre tratamento com psicodélicos.
— Usei principalmente para (tratar casos de) alcoolismo, mas já usei pra casos de abuso de drogas ilícitas, cocaína e tratamento para sexo compulsivo.
O psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor aposentado da Unifesp, onde coordenou a Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, também diz que já fez o uso off-label das drogas de emagrecimento para alcoolismo, sobretudo em pacientes que tiveram problemas com dependência de álcool e drogas após a realização de cirurgias bariátricas.
— Ainda não tenho, porém, uma convicção formada. Já houve outro medicamento com resposta em pesquisas, mas que nunca chegou a ser usado como a expectativa — afirma.
— Acho que é promissor.
Ainda nos consultórios brasileiros, a psiquiatra Analice Gigliotti, diretora clínica do Espaço Clif e professora da PUC-Rio, diz que há outros medicamentos, usados há anos, que ajudam os pacientes a controlar a dependência de álcool em drogas.
Mas vê espaço para, em alguns casos, realizar o uso off-label das “canetas”, sobretudo diante do alto consumo de álcool.
— Muitos pacientes reduzem, outros param (de beber). As evidências neste momento não indicam a capacidade das pessoas chegarem na abstinência — ressalta.
— O futuro requer mais estudos. Se for comprovado com estudos rigorosos duplos-cegos, randomizados [ para determinar a eficiência de medicamentos], pode ser revolucionário.
Uma das principais pesquisadoras de adicção da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, Anna Lembke, autora do livro “Nação dopamina: Por que o excesso de prazer está nos deixando infelizes e o que podemos fazer para mudar” (Ed. Vestígio) também observa com atenção o avanço do uso dessas drogas para novos indicativos.
— Os cientistas ainda não conhecem o mecanismo exato pelo qual os análogos de GLP-1 ajudam pessoas com dependência, mas um mecanismo possível é a redução da liberação de dopamina na via de recompensa em resposta a estímulos apetitivos — afirma. 
No entanto, é importante ressaltar que esses medicamentos ainda não foram aprovados para nenhum transtorno de dependência e que a decisão de utilizar qualquer fármaco deve levar em conta os riscos que podem estar relacionados.





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