Trinta anos após morte, música de Renato Russo ainda ecoa
Amigos e admiradores do músico relembram histórias do artista que marcou o país com sua poesia cantada
Renato Russo morreu em 1996 / Foto:Ricardo Beliel/ SESC/ Ainda adolescente, Renato Russo precisava de um lugar na capital onde pudesse ensaiar com a sua banda Aborto Elétrico. O músico Rênio Quintas comandava o bar Cafofo, na 407 Norte, espaço de resistência de estudantes durante a ditadura, que realizava eventos de cinema, música e literatura. O local tinha um porão para as bandas da cidade fazerem o seu som sem atrapalhar o horário de silêncio.
"Um dia, chegou para mim um moleque magrelo de 17 anos falando que tinha observado que a gente ensaiava e tocava de segunda a sábado. Ele me pediu para poder ensaiar domingo, com o grupo Aborto Elétrico. Achei forte o nome da banda, e ele disse que era para chocar com tudo, que ele era punk", conta Rênio Quintas.
Maestro e diretor musical do projeto Célia Porto canta Legião Urbana, Rênio destaca que se aproximou da obra do roqueiro, apesar de ser ligado à música instrumental. "Aquela música que o Renato fazia não tinha nada a ver comigo. Eu mergulhei na música do Renato e percebi que, como compositor, como melodista, era um grande criador", ressalta.
Em um dos momentos que estava com Renato no restaurante Bom Demais, na Asa Norte, Renato disse para Rênio: "Na verdade, os músicos são vocês que exploram a sonoridade. Eu não, eu uso a música para suporte da minha poesia".
Philippe Seabra, vocalista e guitarrista da banda Plebe Rude, criada na mesma época, comenta que as formações das bandas de rock oitentistas de Brasília foi aleatória. "Em 1979, meu irmão mais velho, baterista, levou um som com um colega de escola, filho do embaixador da África do Sul, Andre Pretorius, com um recém-conhecido que conhecera na noite e que se interessava por punk rock. Ele se chamava Renato Manfredini", conta. O irmão de Seabra, Alex, foi o baterista no primeiro ensaio da Aborto Elétrico, mas, logo em seguida, mudou-se para os Estados Unidos.
"Ele teria sido o baterista da Legião e Capital teria sido outra, se tivesse ficado. Se tirar o Renato da equação, essas duas bandas não teriam existido. Sem a genialidade e talento do Renato, é um pouco difícil imaginar como seria, mas uma coisa eu tenho certeza, Brasília teria tido mais alguns funcionários públicos", brinca Seabra.
A cena de amigos e músicos dessa época era denominada de "Tchurma".
A Plebe Rude não dependia de Renato, mas todos estavam juntos nesse início. "Foi por intermédio do meu irmão André que conheci o Renato, pouco tempo depois de ele ter tocado com meu irmão. A amizade foi instantânea e fui meio que adotado como mascote da Tchurma por ser o mais novo. Melhores mentores eu não poderia ter tido", destaca.
Geração Coca-Cola
O ator Maurício Branco conheceu Renato na casa de Dado Villa-Lobos, quando tinha 18 anos, em uma reunião realizada todos os domingos para comer cachorro-quente. "Quando cheguei lá, foi Renato que abriu a porta. Na mesma hora, tive uma queda de pressão, uma sensação que nunca tinha sentido antes. Foi algo mágico, acredito que sinal do Universo de que ali na minha frente estava o cara que iria mudar a minha vida, porque ele mudou a minha vida", relembra. Renato foi responsável pelo triunfo em um teste de Maurício para uma novela da Globo no início dos anos 1990.
"Ele chamou uma amiga dele para me treinar para o teste. Ensaiei durante uma semana e consegui o papel. Isso mudou minha trajetória e o deixou muito orgulhoso. Ele me trouxe lucidez, filosofia, a música clássica, filmes e livros históricos", conta.
"Era o maior astro do rock brasileiro e ficava feliz em compartilhar todo o seu conhecimento e levar um pouco de lucidez para os jovens. Nos alertava dos perigos que, ele como visionário, sabia que estavam à espreita. Ele falava da volta do fascismo e ninguém acreditava", ressalta Maurício.
O roteirista José Renato Martins tem como uma das memórias mais fortes com Renato, os momentos em que o músico cantava para ele. "Renato tinha essa coisa peculiar. Ele trazia as músicas que ele fazia, os poemas que ele escrevia para que eu lesse. Percebi naquela época que ele cantava para mim", conta. José adorava a canção Anúncio de refrigerante, e percebeu que havia sido escrita para ele. "Depois disso, me apaixonei. Virei o legionário número um", destaca José Renato.
A sua relação com Russo começou quando o roteirista tinha apenas 14 anos. "Ele fez um trocadilho que a gente tinha o mesmo nome. Além do nome em comum, a gente tinha uma preferência sexual em comum. Éramos os dois homossexuais não assumidos", relembra.
O segredo compartilhado tornou a amizade em uma cumplicidade profunda, de reconhecimento e exploração da identidade. "Nós nos conhecemos dentro do armário e um ajudou o outro. Um deu dignidade e força para que o outro pudesse ser quem era", conta. A parceria e confiança também atravessam a música. "Quando eles estavam gravando Geração Coca-Cola, eles fizeram uma versão country. O Renato pediu para parar no meio do estúdio e questionou: 'O que o Zé Renato vai pensar?' Essa era nossa relação", comenta.
Paulo César Cascão, baterista e vocalista da banda Detrito Federal de 1983, resume o que a presença de Renato Russo fez para a capital. "Renato Russo foi a voz que deu alma e sangue ao concreto de Brasília: transformou o céu imenso e as linhas retas do Planalto em poesia urbana e urgente, e fez de uma cidade jovem, o berço de uma geração que aprendeu a cantar suas inquietudes, de forma visceral. Para Brasília, ele ajudou a dar identidade cultural a uma cidade que tinha pouco mais de 20 anos, e não tinha literalmente nada para fazer", ressalta.
Quando a admiração ultrapassa
Responsável pelos filmes Faroeste Caboclo (2013) e Eduardo e Mônica (2022), o diretor de cinema René Sampaio cresceu ouvindo Legião Urbana. "Era adolescente quando ouvi Faroeste Caboclo pela primeira vez, no rádio, e me lembro de ter pensado imediatamente que aquela música daria um filme. Eu tinha uns 14 anos e já sonhava em ser diretor de cinema. Vivi os amores e desafios da juventude embalado pelos cinco primeiros discos da banda", relata.
Para René, as músicas de Renato despertavam grande emoção e admirava a capacidade do artista de contar histórias com personagens, conflitos e universos inteiros em poucos minutos. "Faroeste Caboclo, por exemplo, é uma tragédia sobre amor, violência, desigualdade e destino. Já Eduardo e Mônica fala sobre o encontro de duas pessoas muito diferentes e sobre como o amor pode transformar suas vidas. A música oferece um mapa; o filme precisa imaginar os silêncios, os gestos e tudo aquilo que existe entre os versos", relata o diretor.
O diretor afirma que o maior legado de Renato é a capacidade de continuar conversando com pessoas que nem eram nascidas quando ele morreu. "Trinta anos depois, suas músicas continuam emocionando porque têm profundidade e atualidade. Elas falam de amor, solidão, liberdade, injustiça, medo e esperança: questões que atravessam gerações. É uma obra que continua jovem, porque ainda provoca, questiona e faz com que novos ouvintes se reconheçam naquelas palavras", reflete.
Alguém com quem conversar: a morte e as vidas de Renato
Texto de Carlos Marcelo - Especial para o Correio, que trazemos para você ler e absorver.
Renato Russo ainda tem muito a dizer a meninos e meninas, pais e filhos, fãs de todas as gerações, vidas surgidas depois de sua morte em 11 de outubro de 1996.
Seus versos não perderam o viço; além de traduzir angústias geracionais e anseios individuais, continuam a expressar — e escancarar — as contradições do país. Infelizmente, o Brasil ainda não foi capaz de fornecer as respostas para os questionamentos que ele formulou e cantou.
Que país é este? O que é que eu tenho a ver com isso? Como vou crescer se nada cresce por aqui? Por que você não me deixa em paz? Será que é tudo isso em vão? Brigar pra quê, se é sem querer? Quem é que vai nos proteger?
Muita coisa mudou no país de 30 anos atrás até hoje, mas outras tantas permanecem em nossa realidade. Ou pioraram. A celebração da estupidez e da desunião, o descaso com a educação, o passado de absurdos gloriosos, para citar apenas a letra de Perfeição (1993). Mas há outras canções, ainda mais antigas, também atuais.
Como as constatações de Baader-Meinhof Blues, do primeiro disco da Legião Urbana, lançado em 1985: A violência é tão fascinante e nossas vidas são tão normais, "Essa justiça desafinada é tão humana e tão errada".
Nascido no Rio de Janeiro em 1960, criança na Ilha do Governador e adolescente na Asa Sul do Plano Piloto, Renato Manfredini Junior foi o ponta de lança de um grupo de jovens brasilienses que, numa cidade igualmente adolescente, capturou no exterior a moldura sonora que julgava mais adequada para externar o descontentamento com o que ocorria à sua volta. Eles adicionaram à urgência punk uma poética incisiva e insurgente a partir da observação do cotidiano da nova capital federal. Assim, surgiram Geração Coca-cola, Faroeste caboclo, Música urbana e tantas outras crônicas de um Brasil silenciado pela ditadura militar.
Polaroides de uma juventude que preencheu com energia e poesia os imensos espaços entre o concreto e o cerrado, a terra vermelha e o mármore dos palácios, a plataforma da Rodoviária e a Torre de TV.
Não sou mais tão criança como quando saí da Discoteca 2001 da W3 Sul e da Discodil do Conjunto Nacional com os primeiros discos da Legião.
Nem tão jovem como nos tempos de repórter recém-formado neste Correio Braziliense que, escalado pelo editor de Cultura, o mestre Paulo Pestana, para uma entrevista a respeito do disco
O descobrimento do Brasil, deixou recado na secretária telefônica do cantor e tomou um susto ao atender o telefone no meio da redação e escutar uma voz nada grave, quase infantil. "Oi, aqui é o Renato! Você me ligou?"
São lembranças e histórias de entrevistas, shows, visitas ao apartamento da família Manfredini, na SQS 303, e ao último endereço do cantor, em Ipanema, para as pesquisas incluídas na biografia Renato Russo — o filho da revolução, lançada em 2009.
Recordações que vêm à tona a cada contato com a obra do maior ídolo do rock nacional.
Nas últimas semanas voltei a escutar Legião diariamente. Foi um reencontro. Percebi que, por meio de suas músicas, Renato continua conversando comigo. E, nesses momentos, quando tudo faz sentido, ele ainda me diz muito sobre a nossa cidade, nosso país, nosso lugar em um mundo tão complicado. Sobre o tempo de todos nós, finaliza Carlos Macedo.
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