Por que nossa voz gravada parece diferente???

A voz que você escuta não é a mesma que os outros ouvem: entenda o fenômeno

Locucação/edsonvalerio.com.br
Por que nossa voz gravada parece diferente??? Imagens ilustrativas/FreePik

Quase todo mundo já viveu essa experiência.

Você grava um áudio, escuta e imediatamente pensa: “Minha voz é mesmo assim?”

Ela parece mais fina. Mais nasal. Menos grave. Às vezes até o jeito de falar soa diferente daquele que imaginávamos. Não é defeito do ouvido e, na maioria das vezes, também não é culpa do celular.

A explicação está na maneira bastante particular como o cérebro escuta a nossa própria voz enquanto falamos. E existe um detalhe curioso: a voz que você conhece desde criança não é exatamente a voz que as outras pessoas escutam.

Ouvimos nossa própria voz por dois caminhos

Quando outra pessoa fala conosco, o som percorre o ar, entra pelo ouvido externo, movimenta o tímpano e chega ao ouvido interno. É a chamada condução aérea.

Quando nós mesmos falamos, acontece isso também. Mas há um segundo caminho.

As vibrações produzidas pela laringe atravessam ossos e tecidos da cabeça e chegam diretamente ao ouvido interno. É a chamada condução óssea.

Portanto, enquanto você fala, seu cérebro recebe simultaneamente:
o som que chega pelo ar + as vibrações transmitidas pelos ossos da cabeça.
Essa combinação cria a voz que você está acostumado a ouvir.

Os ossos deixam nossa voz mais grave

A condução óssea favorece principalmente a percepção das frequências mais baixas.

Por isso, dentro da própria cabeça, a voz costuma parecer mais encorpada, profunda e grave.

Mas o microfone não está dentro de seu crânio. Ele capta principalmente o som que sai pela boca e se propaga pelo ambiente. Quando você escuta a gravação, aquela parcela transmitida internamente pelos ossos desaparece.
Resultado:
a voz pode parecer mais fina, mais aguda ou simplesmente estranha.
Na verdade, aquela gravação costuma estar mais próxima daquilo que as outras pessoas ouvem quando você fala.

Então qual é nossa “voz verdadeira”?

Essa pergunta tem uma resposta interessante: depende do ponto de vista. Para você, a voz cotidiana é a combinação da condução aérea com a condução óssea. Para quem está diante de você, o principal caminho é o som transmitido pelo ar.

Já uma gravação depende ainda de outros fatores: microfone, distância, acústica do ambiente, processamento eletrônico, compressão do arquivo e aparelho utilizado para reproduzi-la.

Portanto, não existe uma única versão absolutamente neutra da voz.

Mas, de maneira geral, a voz gravada se aproxima mais da experiência auditiva que os outros têm de nós do que daquela que ouvimos dentro da própria cabeça.
E por que a primeira reação costuma ser: “que voz horrível”?
A física explica parte do fenômeno. O cérebro explica outra.

Passamos anos formando uma imagem mental de quem somos — e nossa voz faz parte dessa identidade. Quando uma gravação apresenta uma versão diferente daquela armazenada pelo cérebro, surge uma espécie de desencontro entre expectativa e realidade.
Além disso, escutamos coisas que normalmente passam despercebidas enquanto falamos:
pausas; respiração; repetição de palavras; sotaque; velocidade; “ééé”, “né”, “tipo” e outros vícios de linguagem; pronúncias específicas; entonação; risadas; nasalidade.

A gravação nos transforma momentaneamente em ouvintes de nós mesmos.
E isso pode ser desconfortável.

Os outros não acham sua voz estranha

Existe aí uma pequena ironia. Aquilo que parece estranho para você é, muitas vezes, exatamente a voz à qual seus amigos, familiares e colegas estão acostumados.

Eles não sentem o mesmo choque porque nunca ouviram sua voz pela condução óssea da sua cabeça.
Para eles, aquela versão que saiu do alto-falante não apareceu de repente.
Ela sempre existiu. A pessoa surpresa é você.

O celular altera bastante o resultado

Nem toda estranheza é provocada apenas pela condução óssea.
Microfones modificam o som. Um smartphone pequeno precisa captar a voz com componentes minúsculos e depois processá-la eletronicamente.
Dependendo do aparelho e do aplicativo, podem ocorrer ajustes automáticos de:
volume; redução de ruído; compressão; frequências graves e agudas; eco; clareza da fala.
Aplicativos de mensagens ainda podem comprimir o áudio para reduzir o tamanho do arquivo.

Por isso, a mesma pessoa pode parecer ter vozes ligeiramente diferentes em uma ligação telefônica, numa mensagem de WhatsApp, num estúdio de rádio ou diante de um microfone profissional.

A distância do microfone muda nossa voz

Experimente falar muito perto de determinados microfones. A voz ficará mais grave e encorpada.

Afaste-se bastante e ela poderá perder peso e ganhar mais influência do ambiente.

Isso acontece por características acústicas do microfone e pelo chamado efeito de proximidade, especialmente presente em alguns modelos utilizados profissionalmente.

Radialistas, cantores, locutores e podcasters aprendem justamente a controlar a distância para conseguir determinada sonoridade. Alguns centímetros fazem diferença.

O ambiente também participa da gravação

Nossa voz não chega sozinha ao microfone. Ela bate nas paredes, teto, chão, móveis e retorna na forma de reflexões sonoras. Um quarto vazio pode produzir uma voz mais “oca”.

Cortinas, tapetes, estofados e outros materiais absorventes reduzem determinadas reflexões.

É uma das razões pelas quais estúdios de rádio e gravação recebem tratamento acústico.

O mesmo locutor, falando da mesma maneira, pode soar bastante diferente em um banheiro, dentro de um carro, numa sala ampla ou dentro de um estúdio.

Nariz, boca, língua e até dentes moldam nossa identidade sonora

A voz não nasce pronta nas cordas vocais. Elas produzem a vibração inicial, mas o som é modificado por várias estruturas do corpo. A faringe, boca e cavidade nasal funcionam como espaços de ressonância.

A posição da língua e dos lábios interfere na formação das palavras.

Formato do rosto, mandíbula e cavidades internas também contribuem para determinadas características.

Por isso, alterações no nariz, inflamações, resfriados ou procedimentos odontológicos podem provocar mudanças perceptíveis na voz. É também por isso que duas pessoas dificilmente têm exatamente a mesma sonoridade.
Por que a voz muda quando estamos resfriados?

Quando o nariz está congestionado, muda a forma como o som utiliza as cavidades de ressonância.
Daí surge aquela conhecida voz de quem está gripado.
O mesmo vale para garganta irritada, laringite e alterações das pregas vocais.
Sono, hidratação e uso intenso da voz também podem influenciar.
Quem fala profissionalmente durante várias horas sabe que a voz das 7h da manhã nem sempre é exatamente a mesma das 7h da noite.

Nossa voz também envelhece

Assim como o restante do corpo, o aparelho vocal muda ao longo da vida. Durante a puberdade, alterações hormonais modificam especialmente a laringe e as pregas vocais, provocando transformações bastante perceptíveis. Com o envelhecimento também podem ocorrer alterações na musculatura, elasticidade e capacidade respiratória. A voz pode mudar de intensidade, estabilidade e frequência.

Por isso, gravações antigas são capazes de revelar algo que fotografias não mostram: como nós soávamos em determinada época da vida.

Por que algumas pessoas têm “voz de rádio”?

Não existe apenas um tipo de voz adequada ao rádio. A impressão de uma “voz de locutor” costuma resultar da combinação entre características naturais e técnica.

Respiração bem controlada, articulação, ritmo, pausa, projeção, intenção e uso correto do microfone podem transformar significativamente a maneira como uma voz é percebida. O profissional aprende também a ouvir a própria gravação sem o estranhamento inicial. Depois de centenas ou milhares de horas diante do microfone, aquela diferença deixa de parecer tão grande.

É possível acostumar com a própria voz gravada?

Sim. E o método é surpreendentemente simples: escutá-la mais vezes.

Com a repetição, o cérebro passa a incorporar aquela representação externa da voz à própria identidade.

É exatamente o que ocorre com radialistas, jornalistas, atores, cantores, apresentadores e profissionais que trabalham constantemente com gravações. No começo, praticamente todos percebem características que gostariam de mudar.
Com o tempo, deixam de estranhar a voz e passam a observar elementos técnicos: dicção, velocidade, respiração, projeção e interpretação.

Quer descobrir como sua voz realmente soa?

Uma gravação simples já fornece uma boa aproximação, mas existe uma experiência interessante.

Grave sua voz com um microfone razoável em um ambiente silencioso, mantendo distância constante e evitando filtros ou efeitos. Depois ouça em bons fones ou caixas de som.

Compare com uma mensagem enviada pelo celular. É provável que as duas gravações também soem diferentes. Isso acontece porque não estamos apenas comparando duas vozes.
Estamos comparando dois sistemas de captação e reprodução sonora.

No fim, sua voz nunca mudou de repente

A voz estranha que aparece quando apertamos o “play” não nasceu naquele momento.

Ela provavelmente esteve ali durante toda a vida. A diferença é que você sempre a escutou por dentro e por fora ao mesmo tempo, enquanto o restante do mundo a escuta principalmente por fora.

A gravação simplesmente retira parte da experiência interna. Talvez por isso ouvir a própria voz pela primeira vez seja tão intrigante.
Nós reconhecemos imediatamente quem está falando — mas, por alguns segundos, parece que aquela pessoa não somos nós.




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