Nanotecnologia pode tratar Psoríase e Vitiligo.

Pesquisa de 20 anos da USP abre caminho para tratamento de precisão contra doenças de pele

Agência FAPESP/PortalEdsonValerio
 Nanotecnologia pode tratar Psoríase e Vitiligo. Reprodução

Imagine tratar uma doença de pele não apenas combatendo seus sintomas, mas tentando interromper dentro da própria célula a produção das moléculas que ajudam a manter a inflamação.

É justamente nesse caminho que pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, trabalham há cerca de duas décadas.

A equipe do laboratório NanoGeneSkin, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, desenvolveu nanopartículas capazes de transportar moléculas terapêuticas de RNA através da barreira da pele.

O objetivo é fazê-las chegar exatamente às células envolvidas em doenças como psoríase e vitiligo, onde atuariam sobre genes específicos.

A tecnologia também integra linhas de pesquisa do grupo relacionadas ao câncer de pele e cicatrização de feridas crônicas.

A estratégia funciona como um “interruptor” 

O coração da pesquisa está em moléculas chamadas siRNA — pequenos RNAs de interferência.

Elas não modificam diretamente o DNA. A estratégia é outra. O siRNA interfere no chamado RNA mensageiro, que carrega para a célula as instruções utilizadas na produção de determinadas proteínas.

Quando existe um gene excessivamente ativo em uma doença, a equipe procura identificar o RNA correspondente e impedir que aquela mensagem continue produzindo proteínas responsáveis pelo processo patológico. É como cancelar uma ordem de fabricação antes que o produto seja montado.
Na psoríase, alvo importante é o TNF-alfa

A psoríase é uma doença inflamatória crônica associada a uma resposta exagerada do sistema imunológico.

Um dos componentes envolvidos nesse processo é o TNF-alfa, uma citocina pró-inflamatória.

Quando produzida de forma exagerada, essa molécula participa da cascata inflamatória característica da doença. Os pesquisadores desenvolveram um siRNA capaz de interferir justamente na produção de TNF-alfa.

O desafio seguinte era fazer esse RNA chegar ao lugar certo.

A pele foi justamente o maior obstáculo

A pele humana existe, entre outras funções, para impedir que substâncias externas atravessem facilmente o organismo.

Sua camada mais externa, o estrato córneo, funciona como uma poderosa barreira. Isso é ótimo para a proteção do corpo. Mas representa um enorme problema para quem tenta colocar uma molécula terapêutica dentro das células cutâneas.

Há ainda outra dificuldade: moléculas de RNA são extremamente frágeis e podem ser rapidamente degradadas. Foi aí que entrou a nanotecnologia.

Nanopartículas protegem o RNA e ajudam a atravessar a barreira

O NanoGeneSkin desenvolveu estruturas conhecidas como nanopartículas de cristal líquido.

Elas são produzidas principalmente a partir de lipídios e possuem dimensões microscópicas.

Dentro dessas partículas, o RNA fica protegido.

A estrutura também interage com a superfície da pele, facilitando a penetração do material terapêutico e sua entrada nas células-alvo.

Na prática, a nanopartícula funciona como um veículo de entrega. Ela carrega a molécula até o tecido onde precisa atuar.

Experimentos conseguiram reduzir inflamação a níveis próximos do normal

Os resultados mais avançados estão relacionados à psoríase.

Inicialmente, os cientistas testaram as nanopartículas contendo siRNA contra TNF-alfa em culturas celulares. Depois, a estratégia avançou para experimentos com animais.

Camundongos receberam indução de inflamação na pele e, posteriormente, foram tratados com as nanopartículas contendo o RNA silenciador.

Segundo os pesquisadores, houve uma redução significativa da produção de TNF-alfa, chegando a níveis basais semelhantes aos observados em células não inflamadas.

Os resultados foram publicados em periódico científico internacional da área de liberação controlada de medicamentos.

Psoríase atinge cerca de 190 milhões de pessoas

O tamanho do problema ajuda a explicar o interesse pela tecnologia.

Segundo dados citados pela Agência FAPESP, a psoríase afeta aproximadamente 190 milhões de pessoas no mundo, equivalente a algo entre 2% e 3% da população global.

No Brasil, a estimativa é de aproximadamente 5 milhões de pessoas. A doença pode causar placas, descamação, inflamação, coceira, dor e importante impacto sobre a qualidade de vida.

E, por ser crônica, muitas pessoas convivem com ciclos de melhora e agravamento por anos.

Tratamento localizado é uma das maiores vantagens buscadas

Uma das promessas mais importantes da estratégia é conseguir atuar diretamente na lesão.

Alguns tratamentos utilizados para doenças inflamatórias precisam agir de maneira sistêmica, ou seja, circulam pelo organismo inteiro. Isso pode aumentar a ocorrência de efeitos adversos.

Com uma terapia tópica de precisão, a intenção é concentrar a ação onde o problema está.

A ideia é reduzir a inflamação local sem necessariamente expor todo o organismo à mesma intensidade de medicamento.

Mas esse benefício ainda precisa ser confirmado em estudos clínicos antes que a abordagem possa virar tratamento disponível aos pacientes.
Vitiligo na mira dos pesquisadores

O grupo investiga há anos uma aplicação semelhante para o vitiligo.

Na doença, células responsáveis pela produção de melanina — os melanócitos — acabam sendo destruídas.

Em estudos realizados pelo NanoGeneSkin, uma nanopartícula foi utilizada para transportar siRNA destinado a reduzir a produção de uma proteína relacionada ao ataque contra os melanócitos.

Em experimentos realizados in vitro, os pesquisadores relataram redução de aproximadamente 80% na produção da proteína estudada.

O laboratório possui inclusive patente envolvendo RNA e nanopartículas para essa linha de investigação.

Como o vitiligo é uma doença complexa e multifatorial, outros alvos genéticos continuam sendo pesquisados.

Câncer de pele exige estratégia ainda mais complexa

O câncer de pele também faz parte das linhas desenvolvidas pelo NanoGeneSkin.

No caso do melanoma, uma das possibilidades estudadas é combinar silenciamento genético e medicamentos antitumorais dentro de sistemas nanométricos.

O objetivo seria bloquear mecanismos utilizados pelas células tumorais para continuar proliferando ou resistir ao tratamento.

O grupo já realizou testes de penetração e experimentos com modelos tridimensionais de células que simulam pequenos tumores. Mas é importante diferenciar as pesquisas: não existe neste momento um produto único já comprovado para tratar psoríase, vitiligo e câncer de pele em seres humanos.

São diferentes frentes científicas desenvolvidas sobre uma plataforma comum de nanotecnologia e entrega de RNA.

Grupo já consegue colocar diferentes moléculas na mesma nanopartícula

Um dos avanços recentes é justamente aumentar a capacidade desse pequeno veículo.

Os cientistas já demonstraram ser possível transportar mais de uma molécula de RNA simultaneamente.

Também estudam carregar RNA e um medicamento anti-inflamatório dentro da mesma estrutura.

Essa característica é especialmente interessante para a psoríase porque a doença não depende de apenas uma molécula. Há uma cadeia inteira de sinais inflamatórios envolvidos.

A possibilidade de atingir diferentes alvos ao mesmo tempo poderia criar tratamentos mais completos.

Pesquisa começou quando RNA de interferência ainda era novidade

A trajetória do laboratório ajuda a dimensionar o avanço.

O mecanismo de RNA de interferência recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2006.

Segundo Maria Vitória Bentley, já em 2007 o grupo brasileiro começava a desenvolver nanopartículas destinadas a carregar essas moléculas. São, portanto, aproximadamente 20 anos de pesquisa.

Nesse período, a equipe aperfeiçoou formulações, métodos de penetração cutânea, estabilidade e formas de produção.

Tecnologia já despertou interesse da indústria farmacêutica

O trabalho começa agora a enfrentar um desafio diferente. Não basta funcionar na bancada.

É necessário descobrir como produzir essas nanopartículas em escala industrial, com estabilidade, segurança e padronização suficientes para virar medicamento.

O grupo possui duas patentes depositadas e trabalha em processos de escalonamento.

Uma das técnicas estudadas é a liofilização, que remove água das formulações e pode ampliar a estabilidade e facilitar armazenamento e comercialização.

Segundo a Agência FAPESP, empresas farmacêuticas já demonstraram interesse em licenciar a tecnologia.

Ainda falta testar em pessoas

É justamente aqui que entra a principal cautela. Os resultados são promissores, mas a tecnologia dermatológica do NanoGeneSkin ainda está em fase pré-clínica.

Até o momento, não há confirmação oficial de ensaios clínicos dessa plataforma em pacientes com psoríase ou vitiligo.

Antes de chegar ao mercado será necessário cumprir uma longa sequência de avaliações envolvendo segurança, dose, eficácia, fabricação e aprovação regulatória.

Os pesquisadores já discutem os caminhos para fazer essa chamada tradução clínica — levar a descoberta do laboratório até o paciente.

Uma pequena partícula para atacar um problema muito específico

O que torna a pesquisa especialmente interessante não é apenas o tamanho microscópico das partículas.

É a mudança de lógica. Em vez de administrar um medicamento e esperar que ele circule pelo organismo até atingir a doença, a proposta é identificar a molécula responsável por um processo nocivo, desligar sua produção e entregar essa ferramenta exatamente no tecido afetado.

Se os resultados observados nos experimentos forem confirmados futuramente em seres humanos, a tecnologia poderá abrir uma nova frente de tratamentos dermatológicos de alta precisão.

Ainda não existe uma pomada de RNA pronta para chegar às farmácias.



































































































Mas uma pesquisa brasileira iniciada há quase duas décadas já conseguiu superar uma das barreiras mais difíceis: fazer uma molécula frágil atravessar a pele e agir dentro das células onde a doença acontece.




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