Imbituva se abraça para suportar a dor de perder 22 moradores

Em Imbituva, cidade onde quase todos se conhecem, abraços viraram uma forma possível de enfrentar a dor coletiva pelas vítimas do acidente na BR-373

Douglas Pimentel/BandaB/
Imbituva se abraça para suportar a dor de perder 22 moradores Fotos: Douglas Pimentel/Banda B

Imbituva, nos Campos Gerais do Paraná, ficou diferente. Não porque suas ruas mudaram, nem porque os lugares que fazem parte da rotina tenham desaparecido.
Foram as pessoas que faltaram. 
A morte de 22 moradores da cidade em um trágico acidente na BR-373, além de uma vítima de Castro, transformou o município paranaense em cenário de um luto difícil de dimensionar. 
Nas conversas, nos estabelecimentos comerciais, entre vizinhos e nas famílias que se despedem, a tragédia deixou de pertencer apenas aos parentes das vítimas.
Em uma cidade onde os rostos são conhecidos e as histórias se cruzam, a sensação é de que todos perderam alguém.
Há um silêncio que não significa necessariamente ausência de barulho. 
É o de quem não encontra palavras suficientes. De quem conhece uma vítima, trabalhou com outra, era vizinho de uma terceira.
De quem não conhecia ninguém, mas conhece quem perdeu. E até de quem, por uma mudança do destino, poderia estar entre os passageiros.
Em Imbituva, o acidente parece ter criado uma pergunta íntima em muitos moradores: e se fosse alguém da minha família?
Para algumas pessoas, essa possibilidade passou perto demais.

Gabrielly Leinecker conhece bem a rotina das viagens para tratamento de saúde. A própria mãe havia feito uma delas na segunda-feira (17).
Depois da tragédia, aquilo que fazia parte do cotidiano ganhou outro significado.
“A gente fica bem pensativo. Foi um alívio, porque ela vai para lá seguido para tratamento. Está um clima bem pesado na cidade, os sogros do Erick, que era o motorista, são meus vizinhos. Vi o filho dele brincando no jardim, aquilo me partiu o coração. Conhecia uma outra passageira também. Acaba sempre tendo um conhecido da gente”, contou Gabrielly Leinecker.
Talvez seja justamente a última frase que ajude a explicar o tamanho da dor em Imbituva. Sempre há um conhecido. Se não era amigo, era vizinho. Se não era vizinho, era cliente. Se não era cliente, alguém da família conhecia.

As distâncias que costumam separar uma tragédia de quem apenas ouve falar dela praticamente desapareceram.
E, no meio de uma cidade tomada por despedidas, a imagem de uma criança brincando no jardim ganha um peso que palavra alguma consegue aliviar.
Viagens de saúde são parte da rotina dos moradores de Imbituva
Na frente da Secretaria de Saúde, o comerciante Gersom Venske acompanha há mais de duas décadas o movimento de quem precisa deixar Imbituva em busca de atendimento em outras cidades.
Ele mora no município há mais de 40 anos e mantém há mais de 22 uma lanchonete naquele ponto.
Do balcão, viu inúmeras partidas e retornos.
“A gente vê todo dia os procedimentos feitos por aqui, porque nós estamos muito dependentes dos recursos fora de Imbituva.
A gente vê o pessoal chegando aqui para a marcação de exames, pegando autorizações para carro, horas para sair.
Acompanhamos diariamente a rotina dessas pessoas que procuram o recurso em outra cidade.
A gente vê o sofrimento, vê às vezes a alegria de uma cura que eles trazem de lá. Enfim, a rotina dos pacientes”, disse o comerciante Gersom Venske.

Era uma rotina conhecida: sair para buscar tratamento em outra cidade, e depois voltar para casa.
Desta vez, para 22 moradores, não houve a volta que familiares e amigos esperavam.
Gersom conhecia algumas das vítimas. Duas delas eram irmãs e frequentavam seu estabelecimento.
“Aqui a gente está localizado num ponto estratégico da Saúde, e a gente é morador de Imbituva há muitos anos.
Já tenho uma idade um pouco avançada, conheço praticamente a grande maioria da cidade e do interior.
Como a gente tem os clientes, as freguesias, tem o caso de duas irmãs que moravam aqui no interior, elas vinham praticamente mensalmente, frequentavam aqui a minha lanchonete.
A gente sente porque a gente conhece, conhece a família, conhece os parentes”, lembrou.
Agora, a memória está também nas coisas pequenas. Nos clientes que entravam pela porta.
Nas conversas de outros dias. Nos lugares que continuarão existindo, mas sem algumas das pessoas que costumavam ocupá-los.

‘Cidade pequena todo mundo se sente como família’
Clarice Pedroso, dona de um restaurante, não perdeu parentes próximos no acidente. Ainda assim, fala como alguém atingido diretamente pela tragédia.
“A gente ficou totalmente desolado, e pelo fato de, mesmo que não foram parentes da gente, pessoas muito próximas, mas a gente se consternou com os familiares. É uma perda gigantesca, toda a comunidade está abalada”, avaliou Clarice Pedroso, dona de restaurante.
Em uma cidade menor, o luto não respeita os limites das casas onde alguém morreu.
Ele atravessa a rua. Chega ao comércio. Entra na conversa entre vizinhos.
Aparece no rosto de quem conhecia apenas de vista e também de quem nunca havia conversado com a vítima, mas conhece seus filhos, seus pais ou seus amigos.
“Cidade pequena todo mundo se sente como família. A família é o aconchego e é isso que a gente sente, porque a perda não é nossa, mas é de toda uma comunidade”, resumiu Clarice
Talvez por isso Imbituva não tenha apenas famílias enlutadas. Há uma cidade inteira tentando aprender, ao mesmo tempo, como carregar a ausência de tanta gente.

Entre a perda e o alívio de um sobrevivente

Para Rosilda Rosa, a notícia chegou primeiro como susto. O irmão, Antônio Rosa, estava entre os passageiros. Ela trabalhava e nem sabia que ele havia viajado.
Apesar disso, o homem sobreviveu junto com outras quatro pessoas.
“Estava trabalhando no momento, nem sabia que ele tinha ido, que estava no ônibus. Na hora levei um susto. Não acreditei.
Graças a Deus não aconteceu nada com ele e está tudo bem. Quando soubemos que ele estava bem, foi um alívio, um milagre”, contou Rosilda Rosa, irmã de um dos sobreviventes.
O alívio, porém, convive com a consciência da dimensão da tragédia.
“Eu não conhecia ninguém, só umas duas pessoas de vista.
Mas o impacto é muito grande, o trauma. Todo mundo muito sentido”, comentou a mulher.

Em poucas horas, algumas famílias receberam a notícia que mais temiam. Outras souberam que seus parentes sobreviveram. E, em uma cidade tão conectada por relações pessoais, até a felicidade de receber alguém de volta encontra pela frente o sofrimento de quem espera por uma pessoa que não voltará.
‘Todo mundo se conhece’
Jean Carlos conhecia muitos dos envolvidos. Trabalhou com dois deles, sendo um sobrevivente.
Para ele, o acidente também expôs uma realidade conhecida pelos moradores que precisam viajar em busca de atendimento.
“Trabalhei com dois deles, um deles sobrevivente. É triste ver que as pessoas saem para se tratar fora da cidade, porque podia ter um hospital aqui, né?
Acabam saindo e perdendo a vida, deixando filhos. Com certeza é uma perda muito grande, todo mundo se conhece, muitos conhecidos”, comentou Jean Carlos.
“Todo mundo se conhece”. A frase aparece de formas diferentes nos relatos e ajuda a compreender por que o impacto se espalhou tão rapidamente. Por isso, não são apenas números em uma notícia. Para quem vive em Imbituva, são histórias com nomes, famílias, rotinas e lugares na cidade.
Marca deixada pelo acidente na BR-373 vai ficar
Gersom acredita que a tragédia permanecerá na memória da cidade por muito tempo.
“A gente vê a própria comunidade comentando, é bem desgastante e a gente fica bastante entristecido com esse acontecimento, que é um dos maiores aqui da região.
Pra Imbituva vai ser uma marca que vai ficar por muitos anos. Com certeza, vai ser uma fase um pouco longa, mas vai ser passageira.
Que Deus conforte a vida de cada um desses enlutados e dos parentes que estão aí, hoje, sepultando os seus queridos”, descreveu Gersom.
As ruas vão continuar recebendo gente. O comércio vai abrir novamente. Pacientes ainda vão precisar buscar atendimento.
Crianças vão continuar brincando nos jardins. Aos poucos, a rotina vai encontrar espaço em meio ao luto.
Mas certas ausências vão passar a fazer parte disso. Porque, em uma cidade onde “todo mundo se conhece”, 22 mortes significam milhares de lembranças espalhadas por incontáveis casas.
E talvez seja isso que pese tanto sobre Imbituva agora. Não são apenas 22 lugares vazios.
São conversas interrompidas, clientes que não voltarão, vizinhos que farão falta, famílias que precisarão reaprender seus dias.
‘Difícil até falar num momento desses’
O vice-prefeito Dirceu José de Camargo também perdeu alguém próximo. Uma das vítimas era seu vizinho.
“É um momento muito difícil, a gente convivia com muitos deles, perdi vizinho com essa tragédia. O município todo está de luto.
É um momento de muita tristeza, muita dor. Difícil até falar num momento desses. A gente tem que enfrentar e dar suporte a essas pessoas fazendo o que podemos”, disse Dirceu José de Camargo, vice-prefeito de Imbituva.
Quando faltam palavras, resta cuidar de quem ficou.
Segundo Dirceu, municípios vizinhos e outras instituições se mobilizaram para ajudar Imbituva a atravessar os primeiros momentos depois da tragédia.
“Os municípios vizinhos, o consórcio da Saúde, o pessoal de Irati, as outras cidades, todo mundo dando apoio, dando suporte. As coisas vão suportando”, concluiu o vice-prefeito.
Abraços no meio da dor
O apoio não elimina a dor. Mas, diante de uma perda dessa dimensão, ajuda uma comunidade que precisa encontrar forças enquanto enterra seus mortos.
Quem esteve pessoalmente em Imbituva encontrou uma cidade abatida. Mas encontrou também algo que talvez explique como ela tentará seguir em frente.
Conforme o relato do repórter Douglas Pimentel, que acompanhou a tragédia no município, é impossível voltar para a casa da mesma forma que chegou.
São muitas mortes. Muito sofrimento. Uma cobertura jornalística que dificilmente desaparece da memória de quem esteve diante dela.
Mas o que mais chamou sua atenção foi a maneira como os moradores reagiram uns aos outros.
As pessoas se abraçavam. Davam força umas às outras. Permaneciam juntas.
Para Douglas, quem esteve em Imbituva dificilmente esquecerá as cenas. Jornalisticamente, a cobertura ficará marcada pelo tamanho da tragédia.
Humanamente, porém, outra imagem permaneceu: uma cidade ferida tentando sustentar a si própria. Até porque, talvez não existisse muito mais a fazer naquele momento.
Quando 22 pessoas de uma mesma cidade morrem, não há frase capaz de organizar imediatamente tamanho vazio.
Não existe consolo rápido para os filhos, irmãos, pais, companheiros, amigos e vizinhos que precisam voltar para casa sabendo que alguém não abrirá mais a porta.
A tragédia deixou uma ferida que não desaparecerá quando terminarem os velórios ou quando as notícias deixarem as manchetes.
Mas, nos dias em que faltaram palavras, Imbituva encontrou nos braços uns dos outros uma maneira de responder à dor.
No momento, Imbituva fez aquilo que ainda era possível: abraçou. Uma cidade inteira chorou. E, para não cair, abraçou quem estava ao lado.





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