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Maringá,27/07/2026

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Fornecedores cobram R$ 30 milhões.

Empresas relatam meses de atraso nos pagamentos da Ponte de Guaratuba

QAP LITORAL/PortalEdsonValerio
Fornecedores cobram R$ 30 milhões. Reprodução AEN/

A Ponte de Guaratuba está aberta. Os carros passam, o antigo ferry-boat deixou de operar e uma espera de décadas terminou para o Litoral do Paraná. Para parte das empresas que trabalharam na construção, porém, a obra ainda não acabou.
Fornecedores e empreiteiras afirmam ter mais de R$ 30 milhões a receber do Consórcio Nova Ponte por serviços prestados durante a execução do empreendimento.
A cobrança envolve empresas de diferentes portes, incluindo prestadores que atuaram diretamente no canteiro e nas intervenções dos acessos.
Algumas relatam atrasos acumulados desde fevereiro, março e abril.
Dizem que os trabalhos foram medidos, faturados e documentados, mas seguem sem uma data concreta para o pagamento. É aí que o problema deixa de ser apenas contábil.
Sem o dinheiro previsto, empresas afirmam ter dificuldades para pagar funcionários, fornecedores de materiais, impostos, financiamentos e outras despesas que continuaram chegando mesmo depois da inauguração da ponte.
Faixas levaram cobrança para a rua
O impasse ganhou visibilidade pública em junho, quando faixas foram instaladas nas proximidades dos acessos à ponte, pelo lado de Guaratuba. Uma delas cobrava diretamente o Consórcio Nova Ponte para que honrasse os compromissos com seus fornecedores.
Até aquele momento, a discussão circulava principalmente entre empresas, contratos, notas fiscais e medições. Com as faixas, foi parar diante dos motoristas.
Os fornecedores passaram a pedir duas respostas objetivas: quando os valores serão pagos e qual será o cronograma para a quitação das pendências.
Mais de um mês depois das primeiras manifestações, essas respostas ainda não foram apresentadas publicamente de forma detalhada.
Consórcio cita impactos não previstos
O Consórcio Nova Ponte é formado pela OECI S.A., Carioca Christiani-Nielsen Engenharia S.A. e Goetze Lobato Engenharia S.A. Em manifestação divulgada sobre o caso, o grupo afirmou que acontecimentos registrados durante a construção produziram impactos que teriam ultrapassado as condições previstas inicialmente no anteprojeto.
O consórcio informou que os pedidos de recomposição do equilíbrio econômico-financeiro continuam em análise pelos procedimentos estabelecidos no contrato.
Também destacou que a obra foi acompanhada e fiscalizada pelo Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná e por órgãos de controle.
O comunicado, no entanto, não apresentou uma relação dos fornecedores atingidos, o valor total reconhecido como devido nem uma data para pagamento.
Também não ficou esclarecido publicamente se todas as cobranças são dirigidas diretamente ao consórcio ou se parte delas envolve contratos firmados com empresas integrantes e terceirizadas.
DER diz que pedidos estão sob análise
O Departamento de Estradas de Rodagem informou que os pedidos de aditivos e reequilíbrio relacionados à obra passam por análise e auditoria. Segundo o DER, os argumentos apresentados pelo consórcio são examinados com base na matriz de riscos da licitação, nas cláusulas do contrato e na legislação.
A autarquia afirmou que os valores reconhecidos como devidos deverão ser pagos depois que as questões estiverem plenamente esclarecidas. Sustentou ainda que o procedimento busca impedir a liberação de recursos públicos sem a devida comprovação.
Essa manifestação trata da relação entre o Estado e o Consórcio Nova Ponte.
Já os fornecedores possuem contratos privados com o consórcio ou com empresas participantes da obra. Por isso, a eventual pendência do Estado não transfere automaticamente ao poder público a obrigação de quitar diretamente todos os prestadores.
Mas a explicação apresentada pelo próprio consórcio conecta os dois debates: a falta de pagamento alegada pelas empresas e a discussão sobre valores adicionais do contrato administrativo.
Auditoria questiona R$ 14,8 milhões
Ao mesmo tempo, o contrato da ponte está sob análise do Tribunal de Contas do Estado.
Relatório técnico do TCE apontou sete possíveis irregularidades relacionadas aos três primeiros termos aditivos e estimou em aproximadamente R$ 14,8 milhões os pagamentos que os auditores consideraram potencialmente indevidos ou superiores ao que seria devido.
Entre os pontos questionados aparecem a formação de preços, a divisão de responsabilidades prevista na matriz de riscos, a inclusão de novos serviços e a aplicação do desconto obtido na licitação.
A equipe técnica recomendou a repactuação do Contrato nº 162/2022 e a compensação dos valores nas medições seguintes.
O DER contesta integralmente as conclusões. Afirma que os aditivos foram sustentados por pareceres técnicos e jurídicos e decorreram de situações encontradas durante uma obra de alta complexidade. Não existe, até o momento, uma decisão definitiva do Tribunal de Contas sobre esses apontamentos.
E há uma diferença que precisa ficar clara: os R$ 14,8 milhões questionados pela auditoria não correspondem aos mais de R$ 30 milhões cobrados pelos fornecedores.
São discussões distintas, embora estejam ligadas ao mesmo contrato e à mesma obra.
Relatos de judicialização
Empresas afirmam que parte das cobranças passou a ser discutida também pela via jurídica.
A reportagem, entretanto, não localizou uma decisão judicial pública que reúna todos os fornecedores ou confirme, de maneira consolidada, o valor total reivindicado. Eventuais processos individuais podem envolver contratos, medições e valores diferentes. A existência e a responsabilidade por cada débito deverão ser analisadas separadamente.
Uma obra pública não termina na inauguração
A Ponte de Guaratuba foi inaugurada em 1º de maio de 2026 e recebeu investimento público superior a R$ 400 milhões. A estrutura de 1.244 metros liga Matinhos e Guaratuba e encerrou a travessia regular de veículos pelo ferry-boat.
Sua importância para o Litoral não está em discussão.
O ponto agora é outro.
Uma grande obra pública também precisa encerrar corretamente os contratos que permitiram sua construção. Isso inclui verificar os serviços, resolver divergências, proteger o dinheiro público e garantir o pagamento daquilo que foi efetivamente executado.
Os fornecedores aguardam uma data. O consórcio aguarda decisões sobre o reequilíbrio financeiro. O DER analisa os pedidos, enquanto o Tribunal de Contas mantém o contrato sob fiscalização. A ponte ficou pronta. A conta, ainda não.
O espaço permanece aberto para manifestações atualizadas do Governo do Paraná, do DER-PR, do Consórcio Nova Ponte e das empresas envolvidas.




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