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Maringá,20/06/2026

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Hormônios podem influenciar avanço do lipedema.

Por Paloma Oliveto
Hormônios podem influenciar avanço do lipedema. Imagem FreepiK

Alterações hormonais, especialmente ligadas ao estrogênio, podem influenciar o desenvolvimento e a progressão do lipedema, doença que afeta principalmente mulheres e costuma surgir ou piorar em períodos como puberdade, gravidez e menopausa. É o que diz um estudo de autores brasileiros publicado na revista Metabolic Health and Disease, do grupo Nature
O estudo aponta falta de conhecimento sobre a doença entre profissionais de saúde, reforçando a necessidade de mais conscientização e preparo para o diagnóstico precoce.
Segundo os autores, apesar do primeiro relato do problema na literatura médica ser de 1940, o lipedema ainda enfrenta desafios no diagnóstico e no tratamento. 
A doença é caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura, principalmente no quadril, nas coxas e nas pernas, simétrico, bilateral e frequentemente é confundida com obesidade ou linfedema.
Segundo o cirurgião vascular e especialista em lipedema Herik Oliveira, de Brasília, a pesquisa confirma dificuldades já observadas na prática clínica. "Muitas mulheres passam anos sem diagnóstico correto, porque o lipedema ainda é pouco conhecido. Isso atrasa o tratamento e impacta diretamente a qualidade de vida das pacientes", afirma.

Do ponto de vista genético, estudos citados na revisão sugerem que entre 30% e 89% das pacientes têm histórico familiar da doença, indicando forte componente hereditário.
A condição é considerada poligênica e influenciada por fatores ambientais. "O lipedema não é escolha nem descuido. É uma doença com base hormonal e genética, que se manifesta predominantemente em mulheres e que não cede a dieta ou exercício convencional. Entender isso é fundamental tanto para o diagnóstico quanto para o acolhimento desses pacientes", destaca Herik Oliveira.
Cristais

O estudo detalha as alterações histológicas encontradas no tecido adiposo de pacientes com lipedema: hipertrofia de adipócitos, aumento da fibrose, infiltração de macrófagos, alterações vasculares como angiogênese e, em estágios avançados, depósito de cristais de cálcio nas células. Essas alterações ajudam a explicar os sintomas mais relatados pelas pacientes: dor, sensibilidade, hematomas espontâneos e inchaço que não respondem à elevação dos membros.
Para Herik Oliveira, compreender a biologia da doença muda a abordagem clínica. "Quando vemos que o tecido adiposo afetado pelo lipedema é estruturalmente diferente, com células hipertrofiadas, fibrose e fragilidade vascular, fica evidente por que os hematomas surgem sem trauma aparente e por que o tratamento precisa ser especializado. Não estamos falando de gordura comum, estamos falando de um tecido doente."
Desafio 
A revisão reforça que o diagnóstico do lipedema é essencialmente clínico e se baseia em critérios estabelecidos desde 1951, como distribuição de gordura bilateral e simétrica nos membros, ausência de resposta ao emagrecimento, presença de dor, sensibilidade e hematomas espontâneos, e preservação dos pés, o chamado "cuff sign".
Entre os exames de imagem, o ultrassom vascular pode ser útil para diferenciar lipedema de linfedema, enquanto a ressonância magnética fornece informações sobre a distribuição de fluidos e o grau de fibrose no tecido subcutâneo. "O diagnóstico precoce é determinante para a qualidade de vida do paciente. Muitas mulheres passam anos sendo tratadas para obesidade ou linfedema, sem resultado, quando, na verdade, têm lipedema. Identificar corretamente a doença é o primeiro passo para um tratamento eficaz", afirma Herik Oliveira.
Tratamento
O estudo aponta que as estratégias terapêuticas disponíveis, incluindo dieta, perda de peso e Terapia Descongestiva Complexa, oferecem controle dos sintomas, mas não são curativas. A lipoaspiração específica para lipedema é considerada para casos graves em que os métodos conservadores falham.
Um dado relevante, trazido pela revisão, desafia um paradigma: imagens de absorciometria de raios-X de dupla energia (DXA) mostraram que, após 12 meses de modificação intensiva de estilo de vida, com dieta e atividade física, uma paciente apresentou perda de 20,9kg de tecido gorduroso, incluindo redução significativa nas pernas, com melhora expressiva da dor e do inchaço. Isso, segundo os autores, desafia a visão de que todas as pacientes com lipedema são altamente resistentes à perda de gordura localizada.
"O tratamento do lipedema é multidisciplinar e precisa ser individualizado. Exercício físico orientado, alimentação anti-inflamatória, uso de meias ou calça de compressão, medicações antioxidantes e, em casos de sobrepeso e obesidade, medicamentos para perder peso são os pilares principais. Em casos avançados e selecionados, a cirurgia pode ajudar com tratamento clínico", conclui Herik Oliveira.
"O manejo mais atual da pessoa que convive com lipedema deixou de ser focado apenas em emagrecimento ou em procedimentos isolados.
Lipedema: o que é, riscos e tratamentos | Rede Américas
Hoje, a abordagem moderna é multimodal, individualizada e multidisciplinar, combinando diagnóstico clínico adequado, controle de dor e edema, terapia compressiva, exercício físico orientado, estratégias nutricionais anti-inflamatórias, cuidado metabólico, saúde mental e, em casos selecionados, cirurgia redutora do tecido lipedêmico, especialmente lipoaspiração tumescente ou assistida por água. Consensos recentes reforçam que o tratamento conservador é a base inicial e que a cirurgia pode melhorar dor, mobilidade e qualidade de vida, mas não deve ser vendida como cura definitiva. Sempre o tratamento inicial deve ser não invasivo! Também há crescimento no uso de recursos complementares, como drenagem linfática, compressão pneumática, fisioterapia, fortalecimento muscular e programas estruturados de autocuidado.
A grande mudança é reconhecer o lipedema como doença crônica inflamatória do tecido adiposo, com impacto vascular, linfático, metabólico, ortopédico e psicossocial."

ANTÔNIO CARLOS DE SOUZA, diretor de publicações da sociedade brasileira de angiologia e cirurgia vascular




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