Israel e Líbano concordaram com cessar-fogo.
Autoridades israelenses aceitaram uma trégua no conflito adjacente à guerra no Irã, acompanhando o movimento de Washington e Teerã que negociam paz definitiva na região
Representantes de Israel e Líbano se reúnem sob mediação do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio — Foto: Oliver Contreras/AFP O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira que Israel e o Líbano concordaram com um cessar-fogo temporário de 10 dias, após conversas com o presidente libanês, Joseph Aoun, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
Segundo o anúncio, feito por Trump em sua rede Truth Social, a trégua entrará em vigor nesta noite, enquanto o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio trabalharão com as duas partes para tentar alcançar uma “paz duradoura”.
O acordo ocorre em meio à ofensiva militar israelense no Líbano, que, segundo o Ministério da Saúde libanês, deixou mais de dois mil mortos e provocou o deslocamento de cerca de um milhão de pessoas. Apesar do histórico de confrontos, o atual conflito entre Israel e o grupo xiita Hezbollah, aliado ao Irã, teve início como extensão da guerra regional envolvendo Estados Unidos, Israel e a República Islâmica. Forças do Hezbollah lançaram ataques contra o território israelense em resposta aos bombardeios em Teerã que resultaram na morte do líder supremo iraniano, desencadeando a resposta militar de Israel, com bombardeios principalmente nos subúrbios ao sul da capital Beirute e uma incursão terrestre na região sul do Líbano, próxima à fronteira entre os dois países.
Segundo a TV al-Mayadeen, ligada ao grupo Hezbollah — que antecipou a possibilidade do anúncio —, a trégua seria resultado da pressão iraniana. Representantes do governo israelense teriam analisado a proposta ao longo do dia e decidido pela adoção do cessar-fogo após uma reunião do Gabinete de segurança. Autoridades libanesas também já haviam adiantado ao Financial Times que o cessar-fogo provavelmente entraria em vigor “esta semana”, depois que as forças israelenses tomassem a província de Bint Jbeil, um reduto do Hezbollah.
Na quarta-feira, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse que o principal objetivo da negociação com o Líbano era garantir o "desmantelamento" do movimento islamista Hezbollah, que atua em paralelo ao Estado libanês.
— Nas negociações com o Líbano há dois objetivos fundamentais: em primeiro lugar, o desmantelamento do Hezbollah; em segundo lugar, uma paz sustentável (...) alcançada por meio da força — declarou o primeiro-ministro depois que os dois países realizaram as primeiras conversas diretas em décadas, sem a participação do grupo xiita.
Netanyahu afirmou que os Estados Unidos mantêm Israel constantemente informado sobre seus contatos com o Irã e que os dois países compartilham os mesmos objetivos, acrescentando que querem que o urânio enriquecido seja retirado do país, que sua capacidade de enriquecimento seja eliminada e que o Estreito de Ormuz seja reaberto.
No mesmo dia, Trump declarou que "acolheria com satisfação" o fim do conflito entre Israel e o Hezbollah no Líbano, segundo um alto funcionário do governo americano informou à AFP.
— O presidente acolheria com satisfação o fim das hostilidades no Líbano como parte de um acordo de paz entre Israel e o Líbano — disse o funcionário, falando sob condição de anonimato. — Mas isso não é algo que tenhamos solicitado, nem faz parte das negociações de paz com o Irã.
Com o anúncio do cessar-fogo entre Irã e EUA, confirmado na segunda-feira passada após Trump ameaçar “matar a civilização” iraniana, a inclusão do Líbano foi alvo de discórdia. Teerã e o Paquistão, mediador do diálogo, afirmaram que a pausa nos combates no país árabe foi acertada com os americanos. Israel, amparado pelos EUA, disse que a guerra continuava, e horas depois lançou o mais violento ataque desde o começo de março. Cerca de 350 pessoas morreram, outras centenas ficaram feridas, e as bombas caíram em áreas onde não há presença do Hezbollah.
O Irã reagiu fechando o Estreito de Ormuz, e disse que os ataques eram uma violação do cessar-fogo.
Os EUA pediram “moderação” a Israel, e pressionaram israelenses e libaneses a se sentarem à mesa na terça-feira para discutir um plano de longo prazo, sem o Hezbollah.
O encontro, o primeiro desde 1993, aconteceu na terça-feira, em Washington, e os embaixadores dos dois países nos Estados Unidos concordaram em prosseguir com as conversas, visando um cessar-fogo e, em um ponto mais complexo, o desarmamento do grupo xiita, previsto no acordo que encerrou outra guerra, no final de 2024.
O líder das negociações com os EUA e presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, exaltou a participação do grupo xiita no conflito na quarta-feira e comentou sobre a possibilidade de um cessar-fogo, que classificou como "resultado da resistência e da luta firme do grande Hezbollah e da unidade do Eixo da Resistência".
Em uma publicação no X, Ghalibaf escreveu que "os Estados Unidos devem cumprir o acordo. Resistência (grupo de aliados do regime autocrático de Teerã) e Irã são uma só alma, tanto na guerra quanto no cessar-fogo". Ele acrescentou ainda que os EUA deveriam desistir do erro [de manter] "Israel Primeiro", em referência aos laços estreitos entre Washington e Tel Aviv.
Antes do anúncio, membros do governo libanês ouvidos pela agência Reuters diziam que havia conversas sobre a trégua em curso, e que os americanos pressionavam Israel para que suspendesse os bombardeios e a ofensiva por terra no sul do Líbano. Também citado pela Reuters, Ibrahim al-Moussawi, deputado do Hezbollah, estimou que um cessar-fogo poderia ser anunciado “em breve”, sem estimar prazos.
Inclusão do Líbano no acordo
As informações sobre o cessar-fogo no Líbano surgem após a maratona de negociações entre EUA e Irã no Paquistão, no fim de semana, e em meio a discussões de bastidores sobre novas reuniões. Na terça-feira, Trump disse que “alguma coisa ocorreria nos próximos dois dias”, e o chefe do Exército paquistanês, Asif Munir, desembarcou em Teerã nesta quarta-feira para reuniões com autoridades locais — segundo a imprensa iraniana, ele levou uma mensagem dos americanos.
Como destacou o representante do Irã à al-Mayadeen e como afirmou al-Moussawi à rede al-Jazeera, Teerã exige que o conflito no país árabe seja incluído em qualquer tipo de plano.
— Os iranianos estão exercendo forte pressão sobre os americanos e impuseram como condição que os americanos incluam o Líbano no cessar-fogo. Caso contrário, continuarão o bloqueio de Ormuz. É a carta na manga econômica — disse o deputado. — Os iranianos se abriram para diversos atores regionais e internacionais para alcançar esse objetivo.
Em reunião com o premier libanês, Nawaf Salam, o chefe da agência da ONU para refugiados (Acnur), Bahram Salih, fez um apelo à comunidade internacional para que ajudem os mais de um milhão de deslocados internos pela guerra.
— As consequências humanitárias desta guerra são imensas, e enfatizo a necessidade de poupar os civis e as infraestruturas civis dos estragos dos ataques. O Líbano não merece ficar preso num ciclo recorrente de violência; merece apoio e estabilidade — declarou à imprensa.
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