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Maringá,29/03/2026

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Produtoras gospel campeãs de shows pelo país.

Pedro Canário e Tiago Mali/UOL
Produtoras gospel campeãs de shows pelo país. Aline Barros faz show na Expo Cristã SP 2025Imagem: Facebook/Reprodução

As produtoras gospel Criative Music e Aguiar Multimusic lideraram o valor contratado de shows por prefeituras entre 2024 e 2025, segundo levantamento com base em dados do Portal Nacional de Contratações Públicas.
Elas tiveram ao menos R$ 105 milhões em contratos com aproximadamente 350 municípios —R$ 53,1 milhões para a Criative e R$ 52,1 milhões, para a Aguiar.
São as únicas produtoras gospel entre as dez empresas mais contratadas por prefeituras nos dois anos analisados. Somados, os dez mais arrecadaram R$ 422 milhões com prefeituras.
Com plantel vasto, as produtoras evangélicas tiveram faturamento superior ao das empresas que agenciam alguns dos mais requisitados artistas, como Xand Avião, Wesley Safadão e Maiara e Maraísa.
Os contratos aparecem em cidades grandes e pequenas.
Dois exemplos são os municípios de Buri, no interior de São Paulo, e Bom Jesus do Tocantins, no Pará.
Buri fica a 300 km da capital paulista e tem cerca de 20 mil habitantes.
Entre os 645 municípios do estado, ocupa a posição 636 no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de São Paulo, segundo o IBGE.
Mesmo assim, a cidade aprovou em 2022 uma lei para retirar R$ 1,5 milhão da saúde, de serviços sociais, de obras de pavimentação, da habitação e de outras áreas.
O dinheiro foi usado para contratar artistas para a Expomandioca, que celebrou os cem anos do município.
Um deles foi o cantor gospel Anderson Freire, que recebeu R$ 100 mil para um show de uma hora.
O Ministério Público de São Paulo pediu a suspensão do evento e a devolução dos cachês, mas a Justiça não acatou o pedido.

Bom Jesus do Tocantins teve bloqueadas as transferências do FPM (Fundo de Participação dos Municípios) por falta de repasses ao INSS. Segundo o IBGE, o município tem 19 mil habitantes, com renda média de dois salários mínimos.
Em maio de 2025, a prefeitura desembolsou
R$ 1 milhão para contratar shows no aniversário da cidade. Todos os artistas eram gospel.
A verba viria de emendas parlamentares estaduais, mas, segundo o Ministério Público do Pará, a prefeitura não comprovou o repasse.
O caso está na Justiça e ainda não tem decisão.
O prefeito de Bom Jesus do Tocantins, Jeilson dos Santos Reis (MDB), disse que apresentou os documentos solicitados pelo MP-PA e que regularizou as dívidas previdenciárias.

Os maiores contratos
O maior contrato das produtoras foi para um festival gospel em São Paulo, em setembro do ano passado: R$ 1,4 milhão para contratar artistas da Criative Music para uma semana de shows.
Participaram PC Baruk, Soraya Moraes, Aline Barros, Anderson Freire, Yudi Tamashiro, Júlia Vitória, Pastor Lucas e ImaginAline, além da dupla André e Felipe e dos grupos Preto no Branco, FHOP Music e Nesk Only.
O dinheiro veio de emenda parlamentar do vereador Marcelo Messias (MDB), integrante da bancada evangélica da Câmara Municipal de São Paulo.
O segundo maior contrato foi com a cidade de Hortolândia (SP). A Aguiar Multimusic recebeu R$ 790 mil por shows de Isadora Pompeo, Midian Lima, Davi Sacer, Sued Silva, Sarah Beatriz e DJ JP.
O evento ocorreu em maio do ano passado, durante a Marcha para Jesus da cidade.

O terceiro maior contrato foi com a Prefeitura de São Paulo.
Foram R$ 500 mil para o show ImaginAline Kids e Amigos, da Criative Music, em um evento gospel infantil no Dia das Crianças de 2024.
O recurso veio de emenda parlamentar da vereadora Sonaira Fernandes (PL), que se apresenta como "Damares paulista", em referência à senadora Damares Alves (Republicanos-DF), ligada à bancada evangélica no Senado.
30 anos de estrada
Fundada em 1997 em Vila Velha, a Criative Music é uma das produtoras mais tradicionais do segmento. Hoje integra o Grupo Criative, que reúne cinco empresas: produtora de eventos, agência de viagens, distribuidora de conteúdo digital, gravadora e gestora de carreiras.
A empresa não divulga faturamento, mas tem capital social de R$ 3,5 milhões.
Entre os artistas estão as cantoras Bruna Karla, Aline Barros e Fernanda Brum. Também fazem parte do catálogo Eli Soares e o grupo Diante do Trono, nomes tradicionais do gospel.
A produtora pertence a um grupo de sócios. Ivanildo Nunes detém 90% das quotas. Os 10% restantes são divididos entre a esposa dele, a dupla André e Felipe e o empresário Aparecido Valero. A cantora Aline Barros já foi sócia, mas deixou a sociedade e hoje tem empresa própria.
Segundo a empresa, são mais de mil eventos por ano e cerca de 30 artistas agenciados.
Parte relevante desses shows é contratada pelo poder público.
Em 2023, a produtora recebeu R$ 2 milhões do governo de Mato Grosso do Sul, segundo reportagem do site TeatrineTV, de Campo Grande.
Em Santa Catarina, prefeituras gastaram R$ 1,6 milhão com shows gospel entre 2024 e 2025. Desse total, R$ 500 mil ficaram com a Criative, segundo o site ICL Notícias.
Segundo levantamento do UOL, o terceiro maior contrato da produtora —depois do festival encomendado pela Prefeitura de São Paulo e do evento do Dia das Crianças na capital paulista— foi com a cidade de Ibimirim, no semiárido pernambucano.
O município pagou R$ 310 mil por shows de artistas da empresa no Dia do Evangélico de 2025, no dia 12 de abril. Bruna Karla recebeu R$ 180 mil para um show de uma hora.
Ivanildo Nunes não concedeu entrevista, mas enviou nota por meio da assessoria. A Criative afirmou que não tem "vinculação político-partidária" e que seus contratos seguem critérios técnicos e a legislação vigente.
"As relações comerciais, contratações e parcerias são pautadas exclusivamente com base em critérios técnicos e profissionais, respeitando a legislação vigente e as normas aplicáveis ao mercado de eventos e gestão artística."

Negócio familiar
A Aguiar Multimusic, novo nome da LL Vilas Eventos, é mais recente. Fundada em 2011, pertence à empresária Kariny Vilas Boas Aguiar, que atua em sociedade com o marido, Jadson Aguiar.
A empresa tem capital social de R$ 500 mil. No elenco estão nomes como Isadora Pompeo, Valesca Mayssa, Midian Lima, Davi Sacer e a dupla Jefferson e Suellen. Foi tentado contato com representantes da produtora por telefone, mensagens e email nos últimos dias, mas não obteve resposta.
Depois do contrato para a Marcha para Jesus de Hortolândia, o maior acordo da Aguiar Multimusic foi com o estado de Roraima. Samuel Mariano foi contratado por R$ 300 mil para fazer quatro shows de uma hora na Marcha para Jesus de Boa Vista, realizada de 3 a 7 de dezembro de 2024.
Em seguida veio um contrato com o município de Cururupu. Foram R$ 280 mil para um show de Isadora Pompeo em evento na cidade, em dezembro do ano passado.

Riscos
Boa parte dos shows para prefeituras aconteceu em datas ligadas à comunidade evangélica.
De acordo com o levantamento, 328 das contratações feitas em 2024 e 2025 foram para shows em marchas para Jesus e dias do evangélico em 212 cidades diferentes. A Criative e a Aguiar levaram 119 desses contratos.
Ao todo, os eventos custaram aos cofres dos municípios R$ 33 milhões.
Depender de contratos com prefeituras pode trazer riscos.
Em alguns casos, mesmo após o show, produtoras podem ser obrigadas a devolver cachês por problemas jurídicos na execução dos contratos.
Os casos de Buri e Bom Jesus do Tocantins envolvem a Criative Music. A produtora foi absolvida em ação civil pública, mas o então prefeito de Buri, Omar Chain (PP-SP), e o ex-secretário de Turismo, Cultura e Lazer Diego Torres foram condenados à perda do cargo e a devolver R$ 45 mil aos cofres municipais.
O caso de Bom Jesus do Tocantins foi aberto em abril de 2025 e ainda não teve decisão. O processo aguarda despacho judicial.
O prefeito Jeilson dos Santos Reis disse que o aniversário da cidade no ano passado custou R$ 1 milhão, mas que cerca de R$ 600 mil vieram de emendas parlamentares. O restante, segundo ele, "foi arcado pelos cofres públicos".
Para o evento deste ano, a prefeitura reduziu a programação em um dia e contratou artistas locais para diminuir os gastos. O custo total ficou abaixo de R$ 900 mil —mais de 90% já estariam garantidos por emendas parlamentares.
Sobre o bloqueio do Fundo de Participação dos Municipios, Jeilson Reis disse que assumiu a prefeitura em janeiro de 2025 e encontrou o município com R$ 70 milhões em dívidas previdenciárias.

Houve ainda um processo em Orizânia. O Ministério Público pediu a suspensão de um evento em que a prefeitura planejava gastar R$ 2,9 milhões com shows —mais do que todo o orçamento anual da cidade para eventos culturais.
A Criative receberia R$ 90 mil por um show de Anderson Freire. O evento foi suspenso pela Justiça e não ocorreu.
Em nota, Ivanildo Nunes, dono da Criative, disse que a empresa "sempre colabora integralmente com órgãos de controle e fiscalização". Ele afirmou que a decisão de alocar recursos e contratar artistas cabe às prefeituras, não à produtora.
"Como prestadora de serviços artísticos, a empresa não possui a prerrogativa —nem acesso técnico— para auditar contas públicas ou fiscalizar a situação financeira, previdenciária ou orçamentária de seus contratantes antes da realização de uma venda."




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