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Maringá,04/04/2026

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Solidão é o novo cigarro?

Por que precisamos falar sobre saúde social

Gustavo Miller/ Colunista do UOL
Solidão é o novo cigarro? GETTY IMAGES

Um paracetamol, um chá e a recomendação de ir à praça todos os finais de tarde.
Parece piada, mas foi esse o receituário médico da única vez em que fui a um hospital na Alemanha.
Sentia dor de cabeça, um pouco de febre, e fui ao pronto-socorro à espera de um antibiótico.
O plantonista, após me examinar por cinco minutos, disse que eu precisava ficar menos em casa: ambiente onde trabalhava, descansava, fazia as minhas refeições e me exercitava.
Eram tempos pandêmicos.
Cinco anos se passaram e os sintomas do isolamento social e da solidão continuam a afetar a nossa saúde.
E precisamos falar mais sobre isso.
Na semana passada rolou em Austin, no Texas, o South By Southwest (SXSW). Em uma das palestras mais disputadas do evento de inovação, a cientista social e pesquisadora americana Kasley Killam se debruçou sobre um tema que ela tem estudado há anos: a saúde social.
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a saúde social é o terceiro pilar fundamental do bem-estar, ao lado do físico e do mental.
E parece que ela está sendo deixada de lado.
O relatório da Comissão sobre Conexão Social da OMS é direto: uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão.
A falta de interação regular está associada a cerca de 100 mortes a cada hora: mais de 871 mil por ano.
 A solidão aumenta o risco de morte prematura em aproximadamente 26%, o equivalente a fumar 15 cigarros por dia.
É mais perigoso do que obesidade, sedentarismo e poluição do ar.
Outros dados recentes reforçam o cenário: 8% da população mundial não tem um amigo próximo. Já 20% dos americanos relatam ter passado semanas sem encontrar as pessoas que amam. E agora uma informação digna de um filme de Spike Jonze : 40% da Geração Z diz ter feito amizade com um assistente de IA.

Quer mais dados?

Um estudo recente do MIT Media Lab com a OpenAI mostrou que o uso intensivo de chatbots estava associado a mais solidão, mais dependência emocional e menos socialização com humanos reais. Ou seja: a Inteligência Artificial (IA) pode ser uma companhia, mas não substitui a conexão de verdade.
Killam costuma bater na tecla que existem quatro áreas principais para fortalecer a saúde social: escolas, trabalho, tecnologia e iniciativas locais.
Para ela, habilidades de conexão deveriam ser ensinadas desde cedo, da mesma forma que educação física.
Aprender a fazer amigos, a pedir ajuda, a pertencer a uma comunidade?
Tudo isso deveria ser tão ensinável quanto qualquer disciplina do currículo.
Durante uma palestra, Killam citou um estudo em que ligações de apenas 10 minutos, feitas algumas vezes por semana, deixavam as pessoas menos solitárias após dois meses.
Mandar uma mensagem quando alguém te vem à cabeça. Pedir uma carona ao aeroporto em vez de chamar um Uber. Eu sei que isso soa como auto-ajuda barata.
Mas a pesquisadora defende que pedir ajuda é um ato de conexão.
E que a nossa resistência a isso (o medo de "ser um peso") é exatamente o que nos isola mais.
 Quando pedimos ajuda, damos ao outro a chance de se sentir importante. E nos sentimos mais próximos depois.
A cientista social, que ironicamente se define como introvertida, criou até um modelo de treinamento para ajudar nas reconexões: a regra 5-3-1.
Passar um tempo com cinco pessoas diferentes por semana: vale colega de trabalho, amigo, vizinho, companheiro de hobby?
Cultivar pelo menos três relacionamentos próximos: sabe aquelas pessoas que são o seu contato de emergência?
Dedicar uma hora por dia, no total, de interação social significativa.
Curiosamente, muito do que Kasley Killam defende hoje dialoga com uma teoria de décadas atrás.
Ray Oldenburg (1932-2022), sociólogo urbano americano, ficou famoso no final dos anos 1980 pela Teoria do Terceiro Espaço: os espaços de socialização que ficam fora de casa (o primeiro lugar) e do trabalho (o segundo lugar).
São o bar do bairro, o café da esquina, o parque, a barbearia, a biblioteca, a praça -- acho que o médico alemão conhecia o conceito!
 Lugares onde as conversas surgem do nada, onde você conhece pessoas que não te "agregam" nada de útil.
O sociólogo os batizou de "lugares muito bons". Os números mostram o quanto perdemos esses espaços.
Em 2019, 67% dos americanos diziam ter um terceiro lugar. Em 2021, eram 56% -- onze pontos percentuais em dois anos.
A pandemia acelerou o processo, mas o declínio já vinha antes.
Quem vive em grandes centros urbanos, como São Paulo, sabe bem como os Terceiro Lugares estão acabando.
A verticalização sem controle das cidades foi engolindo esses espaços um a um. O bar que existia há décadas no bairro dá lugar a mais um condomínio.
O restaurante que tinha mesas e cadeiras vira uma dark kitchen cheia de motoboys na calçada.
 O mercado da esquina dá lugar a uma franquia de conveniência mexicana.
Some isso tudo aos apps de delivery imediato e de streaming infinito: para que sair de casa, socializar e se conectar?
Cinco anos depois da pandemia, os dados confirmam o que a intuição do médico alemão já dizia: a gente precisa de gente.
Não de mais seguidores, não de um chatbot simpático, não de mais produtividade solo no home office.
Precisa de um amigo para ligar sem motivo, de um vizinho que conhece o seu nome, de um lugar fora de casa onde a cadeira já é sua.
O terceiro lugar não vai resolver sua solidão.
Não vai arrumar sua carreira nem sua relação com o seu pai.
 Mas vivemos num mundo que exige que você seja alguma coisa o tempo todo: produtivo no trabalho, interessante nas redes, justificando o aluguel em casa, otimizado na academia.
Todo espaço cobra uma versão de você. Todo lugar tem uma métrica. O terceiro lugar é onde você não precisa ser nada. E às vezes isso é suficiente 





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