Reprodução A americana General Mills anunciou nesta terça-feira que vai vender suas operações no Brasil para o grupo 3corações. O negócio inclui as marcas Yoki, de farinhas, cereais, milho de pipoca, batata palha e outros, e Kitano, de temperos, além de instalações para a cadeia de suprimentos da empresa.
A transação é avaliada em R$ 800 milhões.
O negócio não incluiu a marca Häagen-Dazs, que no Brasil é importada pela General Mills.
A empresa tem sede em Minneapolis, nos Estados Unidos, e tem uma longa lista de marcas de alimentos, incluindo comida mexicana, lanchonetes e até comida para animais de estimação.
Entre elas Cheerios, Nature Valley, Blue Buffalo, Old El Paso, Pillsbury, Betty Crocker, Totino's, Annie's e Wanchai Ferry. A maior parte não é comercializada no Brasil.
Por aqui, a General Mills tem uma receita anual de US$ 350 milhões, uma pequena fração das vendas líquidas, de US$ 19 bilhões, registradas em 2025 globalmente.
Já a 3corações é mais conhecida pelas suas marcas de café em grão, pó e solúvel, além de chás, bebidas cremosas e máquinas para cápsulas de café. Com a aquisição, o grupo disse que vai investir na diversificação do seu portfólio, com produtos que vão do café da manhã ao jantar, e fortalece sua posição como uma das principais companhias do setor.
Para Pedro Lima, presidente do grupo 3corações, transação é parte importante da estratégia da companhia de crescer no segmento de alimentos.
"Estamos entusiasmados com a chegada das marcas amadas pelo consumidor Yoki e Kitano. Este é um passo fundamental em nosso propósito de estar cada vez mais próximos da família brasileira, fazendo-nos presentes em diferentes ocasiões de consumo", disse o executivo, em nota.
O acordo mantém as marcas e tem como objetivo acelerar o crescimento do negócio. A operação ainda depende da aprovação de órgãos reguladores e do cumprimento de condições usuais para esse tipo de transação.
Segundo a General Mills, o negócio deve ser concluído até o fim deste ano. Em comunicado, a companhia americana disse que a venda reforça “a prioridade da General Mills de remodelar seu portfólio para gerar crescimento lucrativo a longo prazo” e aumenta a margem de lucro operacional da empresa.
“Após a conclusão da venda, a General Mills terá entregue quase um terço de seu portfólio por meio de aquisições e alienações desde o ano fiscal de 2018”, citou a companhia. A companhia disse que optou por focar em suas marcas globais como estratégia de crescimento.
Além das vendas das marcas Yoki e Kitano, a General Mill também, vendeu as unidades de Pouso Alegre, em Minas Gerais, e Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso.
O Deutsche Bank foi banco responsável por atuar como assessor financeiro exclusivo do Grupo 3corações na transação. Já o Goldman Sachs atuou como consultor financeiro da General Mills para a transação, e a KLA Avogados atuou como consultora jurídica.
Maior escala no varejo, dizem analistas
Segundo Antônio César Carvalho de Oliveira, da Acomp Consultoria e Treinamento, a 3Corações já conta com uma presença consolidada no mercado de café, mas quer ampliar sua participação em outras categorias de alto volume de consumo de forma a ganhar mais musculatura nacional.
— Com mais marcas, a companhia consegue ainda aumentar seu poder de negociação com supermercados, atacarejos e lojas de conveniência com o aumento da grade de produtos a serem oferecidos e comercializados como um todo — disse Oliveira.
Reestruturação de portfólio
Segundo Victor Amorim, especialista em direito societário do Caputo, Bastos e Serra Advogados, a aquisição da Yoki e da Kitano pela 3Corações é um movimento estratégico relevante para o setor de alimentos.
Embora a 3Corações já tenha alguma atuação em refrescos, milho e derivados, essa presença é pouco expressiva se comparada à sua posição no segmento de cafés, o que afasta, em princípio, preocupações com concentração horizontal nas categorias em que Yoki e Kitano atuam, avalia.
— A 3Corações tem uma rede de distribuição extremamente capilar no varejo brasileiro, e levar Yoki e Kitano por esse canal pode acelerar muito o crescimento dessas marcas. No cenário mais amplo, a operação é mais um capítulo de uma tendência global em que grandes multinacionais enxugam portfólios para focar no que é mais rentável, abrindo espaço para que grupos brasileiros assumam marcas consolidadas e as desenvolvam com mais foco e proximidade do consumidor local — afirma Amorim.
Ulysses Reis, professor da Fundação Getulio Vargas e da SBS, lembrou, que as multinacionais estão em um momento de rever portfólios de olho na busca por rentabilidade. Ele cita o caso da Nestlé, por exemplo, que recentemente anunciou a venda da divisão de sorvetes e também vem buscando compradores para sua divisão de água.
O mesmo ocorre com a Unilever, que separou sua unidade de sorvetes, dando origem à Magnum Ice Cream Company. O movimento vai além da área de alimentos. Também no cenário internacional, a Reckitt se desfez de 70% da divisão que reúne marcas como Air Wick e Vanish.
— Existe uma tendência mundial de mudança na visão de investimentos nas grandes corporações. Esse movimento começou a ganhar força depois da pandemia, por conta de novas estruturas de custos de logística e de energia, que ficaram mais caras. Por isso, o portfólio passou a ser revisto.
Para ele, o cenário de preços tende a ficar ainda mais complexo com as guerras recentes, como a da Rússia e Ucrânia e, mais recentemente, entre Estados Unidos e Irã, com o aumento do barril do petróleo e o fechamento do Estreito de Ormuz.
— Por isso, as empresas não querem mais dominar categorias por completo, mas sim investir em marcas com alta margem de rentabilidade.
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