O remédio para diabetes e obesidade que venceu a semaglutida.
Imagem: Adobe Stock O nome, cheio de "r", parece um trava-línguas: or-for-gli-pro-na.
Mas, a julgar pelos resultados espetaculares no controle da glicemia e na perda de peso divulgados em um estudo ainda fresquinho nas páginas da revista científica The Lancet, a orforgliprona logo cairá na boca do povo. Aliás, na boca, literalmente, de pessoas com diabetes tipo 2 e obesidade, porque estamos falando de um comprimido diário.
A farmacêutica Lilly, que desenvolveu a molécula em parceria com a Chugai, uma das principais empresas do setor no Japão, já submeteu o remédio para aprovação em agências regulatórias, como a nossa Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e sua equivalente nos Estados Unidos, a FDA.
E por que todo o auê diante do ACHIEVE-3, como é chamado o estudo recém-publicado?
Porque ele não é simplesmente um ensaio clínico de fase 3, aquela etapa em que se pode bater o martelo, afirmando que uma droga está apta a chegar nas farmácias porque é segura e eficaz. Mais do que isso, o ACHIEVE-3 é um duelo entre dois tratamentos, ou melhor, um estudo cabeça a cabeça, como se diz no jargão dos pesquisadores.
A novidade, que é a orforgliprona, foi comparada com a consagrada semaglutida oral. "Queríamos saber se os seus resultados não eram iguais, nem inferiores ao que já existia de melhor e comprovado em matéria de agonista do GLP-1 oral", conta o doutor Luiz André Magno, diretor médico sênior da Farmacêutica Lilly no país.
Duas vantagens de largada - Se a novidade se mostrasse inferior, iria provavelmente parar na gaveta da ciência. Se fosse igual à semaglutida na forma de comprimido, talvez tivesse o mesmo destino, porque, então, seria como trocar alhos por bugalhos.
Se bem que pareceria injusto considerar um possível "empate" se os resultados dos exames dos participantes fossem idênticos. Afinal, de largada, a orforgliprona apresentou duas nítidas vantagens em relação à sua rival na prova cabeça a cabeça.
A primeira delas é ser o que é rotulado de pequena molécula. Tamanho, no universo das ciências farmacêuticas, é documento: "Quando se trata de uma pequena molécula, a gente consegue produzir em uma escala muito maior, o que é importante para atender pessoas com doenças tão prevalentes, como a obesidade e o diabetes tipo 2", justifica o doutor Magno.
Pergunto se a facilidade na produção em grande quantidade tornaria a medicação mais barata que as concorrentes.
O médico afirma, com sinceridade, que é cedo para responder. "Nem é a indústria que decide o preço final", lembra.
De fato, no nosso país é a CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos), um órgão interministerial.
A segunda vantagem da orforgliprona é que, ao contrário da semaglutida oral, que exige ser engolida de estômago vazio, com a ajuda de pouquíssimos goles de água, sendo que, depois, a pessoa ainda deve esperar meia hora para comer ou beber qualquer coisa, o novo remédio pode ser tomado de barriga cheia ou não. Facilita, assim, a vida dos pacientes.
Isso porque a nova molécula não é, como a semaglutida, um peptídeo, formado por aminoácidos, as unidades que constroem uma proteína. Logo, não é arrasada pelo processo digestivo. O fato de a semaglutida ser um peptídeo e enfrentar a digestão foi o que dificultou, em um primeiro momento, sair das famosas "canetinhas", com aplicação subcutânea, para ser encontrada em comprimidos.
Diga-se que só 1% ou 2% da substância terminam absorvidos (embora sejam 1% ou 2% bem poderosos!). "Enquanto, por não ser peptídeo, 77% da orforgliprona que alguém toma são disponibilizados para o seu organismo", revela o doutor Magno.
Apesar de saber disso e ter uma longa carreira acompanhando pesquisas de novos medicamentos, o médico admite que ficou espantado com a comparação das duas drogas.
O que se viu - O estudo contou com nada menos que 1.698 participantes de seis países: Estados Unidos, Argentina, China, Japão, México e Porto Rico. Eles foram divididos, por sorteio, em quatro grupos.
O primeiro deles recebeu diariamente, por 52 semanas, 12 miligramas de orforgliprona. Já o segundo tomou, pelo mesmo período, o comprimido com uma dose mais alta da medicação, que é de 36 miligramas. Os outros dois grupos, pertencentes ao time da semaglutida, seguiram a mesma lógica: um deles engoliu uma dose mais baixa, de 7 miligramas, e o outro, a mais alta, de 14 miligramas.
Passado um ano inteiro, com todo mundo medicado, os pesquisadores examinaram a hemoglobina glicada de cada um. Só para lembrar: hemoglobina glicada é aquela molécula do sangue que termina cheia de glicose grudada, entregando se esse açúcar estava muito alto na circulação nos últimos dois ou três meses.
A dose menor de semaglutida diminuiu, em média, 1,1% da hemoglobina glicada dos participantes. Com a dose maior de semaglutida, a redução foi de 1,4%. Mas esse resultado ficou aquém até do obtido com dosagem mais baixinha da orforgliprona, que conseguiu cortar a glicada em 1,9%. Na dose maior, deu show: 2,2% a menos!
Parece pouco, mas pense que uma hemoglobina glicada acima de 6,5% indica diabetes tipo 2. E que, com a diminuição, sete em cada dez pacientes que tomaram a dose mais alta da nova molécula ficaram abaixo desse limite no final do estudo, contra metade dos participantes, no caso da semaglutida.
Já valores entre 5,7% e 6,4% no exame de hemoglobina glicada apontam para o pré-diabetes.
E o que o estudo mostrou: depois de um ano, conforme a dose, entre 25,4% e 31,7% dos pacientes tratados com orforgliprona nem pré-diabetes apresentaram mais.
Na turma da semaglutida, conforme a dose também, isso aconteceu com 7,8% ou 12,5% dos pacientes apenas.
Em relação à perda de peso
O comprimido com dose mais baixa de semaglutida levou a uma perda média de 3,6 kg, enquanto o ponteiro da balança caiu 5 kg, em média, com a dose maior dessa medicação oral.
A orforgliprona, por sua vez, levou a reduções médias de 6,6 e 8,9 kg, com a dose mais baixa e a mais alta, respectivamente.
Mesmo assim, outra vez pode parecer pouco. Será que o ponto alto desse remédio é o que consegue no diabetes tipo 2?
Questiono o gerente médico da Lilly sobre isso, já que a empresa trouxe a tirzepatida, do famoso Mounjaro, que leva a um emagrecimento bem mais expressivo. "Não acho isso", ele diz. "Para muita gente, perder 8,9 kg é o suficiente para sair da faixa de obesidade. E, se não for, talvez no futuro os médicos cogitarão trocar uma medicação mais potente pela orforgliprona na fase de manutenção."
O ponto fraco
Os efeitos adversos do novo remédio são os mesmos de outros medicamentos inspirados na ação do hormônio GLP-1, que o nosso intestino produz: náusea, problemas digestivos e diarreias, principalmente no início do tratamento.
Mas é preciso dizer: oito em cada cem participantes nos grupos da orforgliprona não aguentaram e largaram o estudo no meio do caminho. Isso aconteceu só com metade dos usuários da semaglutida.
Para o doutor Luiz Magno, esse é um aspecto que precisa ser esclarecido. Seria pela absorção maior? — fico em dúvida.
Cauteloso, ele não diz que sim, nem que não.
Se bem que a hipótese para explicar o sucesso da molécula é a forma como ela se encaixa nos receptores do GLP-1, mais do que qualquer questão de absorção. Pois, no fundo, cada medicamento agonista desse hormônio tem um encaixe ligeiramente diferente, por assim dizer.
Neste momento há uma pesquisa em andamento para ver o impacto da orforgliprona na redução de infarto, AVC e morte por doença cardiovascular.
Outros estudos, que também já estão acontecendo, querem checar se ela é capaz de melhorar quadros de incontinência urinária e de osteoartrite causados ou agravados pelo excesso de peso.
Parece que orforgliprona vai dar ainda mais no que falar.
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