Maria Ribeiro: 'Tenho coragem de bancar quem sou
Reprodução Maria Ribeiro, de 49 anos de idade, é pura intensidade. Atriz e escritora, ela mudou recentemente sua rotina para acompanhar a vida de Larissa, o outro lado de Anitta, com a mesma emoção, sua característica marcante. A também jornalista mergulhou na sensibilidade da amiga definida como "dupla improvável" aos olhos dos outros, como roteirista de um documentário revelador, narrado na voz de um amor de adolescência da cantora.
O fato é que esse trabalho reflete muito sobre quem é a cabeça do texto que cativou o Brasil, marcada pela visão romântica em relação à vida sem deixar de sentir as dores de viver em um mundo real. "Estava no meio de um filme, terminei correndo. Mudei minha vida inteira para poder ficar um mês internada na vida dela, viajando com ela, dividindo o quarto, porque tinha que entender como era a Larissa, o que ela estava buscando", conta à revista Quem. "E colocar [o olhar] de alguma forma no lugar do Pedro, porque escrevo como Pedro. Foi muito interessante. Foi um trabalho de roteirista e, ao mesmo tempo, quase um trabalho de atriz. Tenho a sensação de que eu fiz o personagem do Pedro", completa.
Mas como se define a Maria Ribeiro que motivou a escolha de Anitta? Intensamente genuína, amiga de Fernanda Young pela franqueza, atriz mais reservada, escritora muito solta, namorada do discreto Rica Amabis, mãe apaixonada de João, com Paulo Betti, e de Bento, com Caio Blat, prestes a completar cinco décadas de vida com o desejo de ter netos e vê-los crescer. Ela reflete à Quem sobre vida pública, carreira, maturidade, relacionamentos, maternidade e sonhos. Confira a entrevista na integra a seguir.
Quem: Você disse que é do tipo de pessoa que já pediu para ser amiga de alguém, que faz acontecer quando quer. Como é isso?
Maria Ribeiro: Essa história foi com a Fernanda Young. Mas falo muito as coisas que sinto. Não sou blasé. Quando me interesso muito por alguém, de fato, vou atrás. Essa coisa de fazer acontecer é o que herdei muito do meu amigo Domingos Oliveira (dramaturgo, morto em 2019). Não vou esperar alguém, vou eu mesma dizer, porque talvez o que queira fazer na vida, ninguém tenha feito ainda. No sentido de que sou atriz, mas escrevo, dirijo, entrevisto. Uma hora pode ser que queira gravar um disco. Não quero ter que me encaixar. E sei também que a gente vive no mercado, que é muito competitivo, tem muita gente legal, sei mais ou menos o que eu gosto. Acho que essa coisa de fazer acontecer é porque tem projetos que caem no meu colo que são incríveis, como o filme da Laís Bodanzky (diretora), o Desalma, roteiro da Anitta, são coisas que fui chamada e que são incríveis. É meu feminismo preferido dizer para uma mulher que ela importa para mim
E você vai atrás de projetos também? Às vezes, quero contar uma coisa...O documentário do Los Hermanos, por exemplo. Adoraria que alguém tivesse me chamado. Minha última peça foi o pós-F. Li o livro da Fernanda Young, liguei e falei que queria fazer a peça. Ela falou que não era uma peça, era um livro. Falei que adaptaria porque tinha certeza de que era uma peça. Gosto muito de dizer para as pessoas que gosto delas. É meu feminismo preferido dizer para uma mulher que ela importa para mim, que ela mudou a minha vida. Vejo que isso não é tão comum. Fernanda disse para mim que não escutava isso. Depois que ela morreu, todo mundo ficou assim: ‘Nossa, Fernanda…’. Mas quando ela estava viva, isso não estava acontecendo.
Em algum momento, você se sentiu perdida ou pressionada a agir diferente? Sempre fui uma pessoa mais emocionada, que tentava manter uma pureza, franqueza. Alguém pode pegar o que falei e fazer um recorte. Vai acontecer e já aconteceu milhões de vezes. Mas prefiro viver achando que as pessoas, predominantemente, são legais. Me faz bem. Não fico acompanhando muito o que sai sobre mim, não tenho alerta Google. Tento não acreditar nem quando elogiam muito nem quando detonam. É difícil. A gente fica feliz quando elogiam, fica triste quando detonam, mas tento não achar que é pessoal em nenhuma das duas situações.
Como não ser blasé em um mercado com muita gente blasé? Acho que já tive mais receio de ser assim [emocionada], porque achava que seria mais chique se fosse mais difícil. Hoje em dia, percebo a importância de ter empresária, assessora... Mas houve momentos em que eu falava: ‘Ah, não, gente, quero ter uma relação direta com todo mundo, não quero intermediar’. Hoje, sei que não estou dando conta, vou surtar, preciso de um esquema. Mas quero ter o esquema mantendo a minha identidade. Não quero que o esquema me engula. Vou na padaria, falo com todo mundo. Não acho que as pessoas têm obrigação de saber quem eu sou.
Recentemente, você comentou que está com saudade de atuar, porque está cansada de você... Atriz é a profissão que coloco na ficha de hotel, é a minha primeira profissão. Se tivesse que escolher uma, diria só atriz. A escritora hoje está chegando bem, quase meio a meio. Quando a gente está na dúvida do que fazer, pensar no que gostava quando pequena é um bom termômetro. Gostava muito de imaginar que era outras pessoas, porque isso me dava uma coisa de sonhar. A própria Anitta brinca comigo: 'Ai, Maria, você vive num sonho. Vai beber uma água e faz uma poesia sobre a água. É só uma água'. Tenho essa necessidade do sonho. Acho a vida muito dura. Jamais poderia trabalhar com jornalismo político ou cobrir uma guerra. Admiro tanto quem faz isso, mas eu não aguento. Vejo um filme que tem uma criança sendo maltratada e passo o dia inteiro na cama destruída. Absorvo muito as coisas. A coisa de ser atriz, mudar o cabelo, o sotaque... É uma maneira que você tem de alimentar essa natureza, não diria infantil, mas um pouco sonhadora mesmo. Gosto dessa transposição.
E está pronta para esse retorno? Vai fazer 3 anos que não faço teatro. Esse ano, vou estrear uma peça e fazer dois filmes - filmar um e estrear outro, que fiz ano passado com o Caco Ciocler. Estou com saudade. Me lembro quando estava no Saia Justa, fui chamada para uma novela antes de Império [2014]. Falei: 'Ah, não sei mais se quero ser atriz, estou amando ser apresentadora. Acho que quero ser jornalista e estudar'. O Saia foi um desafio muito grande para mim. Não me achava capaz no início, ficava insegura e comecei a estudar muito para os programas. Aí falei: 'Cara, vou fazer isso da vida. Não vou mais ser atriz, vou ser jornalista, que é o que tinha faculdade'. Aí fui chamada para fazer Império e era uma personagem muito fútil, perua e falei: 'Ai, que delícia ser uma coisa que não sou, descansar de mim, não ter que ficar o tempo inteiro...'.
Qual o limite para você quando está na versão atriz? Nunca tive isso de me perder de mim. Acho que isso não é ser ator. Acho que isso tem nada a ver com ser ator. O Selton Mello fala isso maravilhosamente bem, não sei exatamente a frase, mas é: 'Sei fingir que estou cansado, não preciso correr uma maratona para fazer'. Tem personagens que você precisa fazer fisicamente - uma novela em que faço uma perua, vou ter unhas grandes ou cabelo loiro, é o físico. Mas, psicologicamente, nunca fiquei na dúvida de quem era ou mergulhei a ponto de não saber quem sou. O máximo é que conheci o Paulo Betti fazendo uma peça, a gente ensaiou durante 6 meses, viajou durante 1 ano, começanos a namorar, casamos. Mas isso não tem a ver que mergulhei na personagem e esqueci quem era. Foi um convívio muito intenso e a gente acabou ficando junto, mas a gente nem era par romântico.
Sente algum tipo de pressão externa em relação à hierarquia das funções que ocupa? Eu, Maria, não tenho. Se tenho, não tenho tanta consciência. Mas sinto que, de fora, dependendo do ambiente em que você está, ser uma escritora e atriz gera uma pequena confusão. Como se você não pudesse fazer bem as duas coisas ou como se você tivesse que ter um figurino X para escritora e outro X para atriz. Isso está mudando, mas me lembro que, no começo, se estivesse numa feira literária com uma roupa matadora, batom vermelho, sentia que iam falar: 'Isso não é exatamente um figurino de uma escritora'. Logo que comecei a ficar mais conhecida, ia nas pré-estreias, quando não tinha Instagram, tinha muito fotógrafo e falavam: 'Sorria'. Se ia com meu marido, era: 'Tira uma foto beijando o Caio'. Eu falava: 'Desculpa, não me sinto confortável de fazer foto beijando'. Ao mesmo tempo, ouvia que tinha que ser mais solta. Não posso não ser quem sou, não fico à vontade de dar um beijo para a câmera. Talvez, para as atrizes, seja uma atriz considerada mais reservada e, para as escritoras, seja muito solta.
Você teve dois relacionamentos públicos, com filhos. Como é isso hoje? Me dou bem tanto com o Paulo quanto com o Caio. Fiquei 9 anos com o Paulo e uns 12 com Caio. Tenho um filho com cada um, nunca os cortaria da minha vida, jamais. Amei muito, fui muito feliz, e, principalmente, porque temos filhos juntos. Claro que não é uma relação perfeita, a gente convive, porque criamos pessoas juntas, mas a gente se dá muito bem. Só acho que as coisas passam também. Me separei do Paulo em 2005, tem muito tempo, me separei do Caio em 2017, também tem muito tempo. Não tenho tido mais muita vontade [de comentar], embora eu fale na literatura, comente e tenha uma escrita que é muito autorreferente.
Como lida com filhos e o atual relacionamento na vida pública? Meus filhos não gostam de ser expostos. É muito contraditório, porque sou uma pessoa que se expõe muito. Mas se você parar para pensar, poucas pessoas vêem meus filhos e meu namorado no Instagram. Nem o meu namorado, nem o João e nem o Bento, gostam de estar lá. Eu gosto, tenho prazer. Tem uma coisa de trabalho, mas gosto de trocar com o público, postar uma foto quando estou gata, um texto quando acho bom. Gosto de indicar série, sou uma comunicadora essencialmente. Também não me levo tão a sério, a ponto de falar: 'Não vou dizer quem é o meu namorado'. Meu namorado é o Ricardo Amabis, ele é músico, produtor musical. João tem 21 anos, o Bento tem 15, namorei o Fábio Assunção, namorei o Davi Moraes, namorei com pessoas conhecidas. Tento fugir de situações onde eu perceba que...Dei uma entrevista uma vez que, quando terminou, falei: 'Cara, eu não falei de nenhum trabalho meu, fiz três documentários, escrevi um agora, 15 filmes, novelas, escrevi quatro livros, não falei de nada disso. Isso que acho chato. Também tenho maior interesse na vida pessoal das pessoas, sinto falta de revista física, adoro saber da vida dos outros. Mas a gente só quer saber da vida dos outros quando elas têm uma vida interessante e a vida interessante não vem só pelos pares amorosos. Você quer saber do par amoroso, porque ela fez um trabalho que você amou ou falou algo que você respeitou.
Como tem sido amadurecer para você? Está sendo muito bom. Vou fazer 50 anos em novembro. Teve um momento, com 45, 46 anos, na pandemia, que falei: 'Caramba, estou nos meus últimos anos onde ainda me considero jovem. Estou perdendo esse tempo e aí será que vou ter papéis?'. Mas a minha carreira nunca foi baseada na minha beleza física. Quando penso em mim, não sou essa pessoa linda. Me acho bonita, mas nunca fui a menina mais bonita da escola, minha vida não foi baseada nisso. Conforme você vai amadurecendo, vai mudando o seu conceito de beleza. Hoje em dia, olho para a Jane Fonda, falo : 'Uau, quero ser a Jane Fonda'. Mais para perto, Fernanda Torres, tem 60 anos. Quando entrei na menopausa, estava entrevistando uma atriz mais velha para um podcast e comentei que estava achando que estava na menopausa e ela falou: 'Não conta para ninguém'. Eu falei: 'Como assim não conta para ninguém? A gente precisa trazer esse assunto'. Fiquei chocada quando vi a Fernanda falando sobre isso. Um dos projetos mais legais que tenho esse ano é um podcast, não posso falar muito, em outubro, sobre amadurecimento e passagem do tempo.
Tem sofrido com o envelhecimento de alguma forma? Teve um momento onde eu sofri. Quando fiz os 48, comecei a chegar muito perto dos 50, falei: 'Pô, que maravilha, sabe? Estou tão feliz com quem eu sou'. Consigo dizer nãos que não conseguia dizer antes. Consigo ter coragem de bancar quem eu sou, mesmo não sendo exatamente o que todo mundo queria, o que a minha mãe queria, o que meus filhos gostariam que eu fosse. Sinto que, para eles, é chato, preferiam que fosse uma engenheira. Mas é isso, cada um faz o que pode. Estou começando a ter cabelo branco e isso está sendo muito lucro. Segundo a minha dermatologista, é muito tarde. Provavelmente, pintarei meus cabelos, não tenho vontade ainda, pode ser que mude, a vida é dinâmica e mudo muito, o tempo todo. Acho que essa é a graça.
E já mudou algo na sua vida a partir da maturidade? Não vou dizer que vou ficar tranquilona de ter cabelo branco e que vou ter muito orgulho das minhas rugas. Não é verdade. Vou ter orgulho de algumas, outras faço botox, por enquanto é o que faço. Mas não tenho nenhum julgamento. Também acho esquisito quando a pessoa romantiza e fala que é facílimo envelhecer. Não é facílimo envelhecer, porque seu rosto muda, corpo muda, energia muda, porque está chegando mais perto da morte, você vê seus pais envelhecendo, morrendo, perde pessoas. Mas, ao mesmo tempo, o fato de você ir envelhecendo, você fala: 'Caramba, não tenho mais todo tempo do mundo, não vou mais perder tempo com besteira'. Isso para mim foi tipo uma antes e depois, uma coisa maravilhosa. Não perco mais tempo com conversinha pequena, quero viver a vida, só fazer coisas pensando que essa meia hora com você, estou com você, essa meia hora vai ser muito grande lá na frente, não vou matar tempo nenhum, quero viver muito tempo.
Onde a maternidade se encaixa nisso tudo? Sou completamente apaixonada pelo fato ser mãe. Acho que não tem nada na vida que tenha me dado felicidade maior. Tenho uma troca muito grande com os meus filhos, aprendo muito com eles, viajo com eles. A gente é uma família completa de três. Isso é muito legal, porque, no início, quando você desfaz a família, você pensa: 'Mas a familinha Doriana'. Hoje em dia, falo: 'Caramba, minha familiinha é muito Doriana: eu, João e Bento'. Tenho meu namorado, que mora em São Paulo, moro no Rio e, enfim, os meninos estão crescendo também, João tem 21, Bento tem 15, daqui a pouco eles vão ter a vida deles. Isso também passa a ser outro momento para mim. Mas essa parte de criar duas pessoas, ter um vínculo tão forte assim e ao mesmo tempo estimular eles a não ficarem dependentes de mim. É um grande exercício de você não ser o centro. Começo a falar dos meninos e até me emociono, sou muito fã. Eles são caras muito legais, aprendo muito. A maternidade é um pedaço muito importante da minha vida.
E ser mãe de adolescente e adulto? A passagem do tempo tem sido igualmente incrível. Acho incrível ter um filho que está começando a vida adulta, acho incrível ter um filho adolescente. Tenho pânico de quem fala 'aborrescente', acho uma sacanagem. A adolescência é um momento superdifícil. É importante que eles se distanciem de você, que eles te neguem, eventualmente. Aprendo para caramba. Ouço as músicas que os meus filhos ouvem, vejo os filmes que eles vêem. Rejuvenesço a minha cabeça através deles. Não está doendo nada para mim. Não penso que só quando eles eram pequenos era uma delícia, a grande mãe idolatrada, a Pequena Sereia para os meninos...Não. Para mim, tem sido igualmente incrível.
No que você é 'Maria Vai Com Os Outros', como diz o título de seu programa? Eu sou muito Maria vai com os outros. Por exemplo, estou fechando a capa do meu livro novo, que lança em junho. Aí mostrei a capa pro João, meu filho, e ele falou: 'Não gostei'. Falei: 'Acho que não'. Tenho um irmão 11 anos mais velho, que sou muito próxima, o Otávio, falei: 'Otávio, o que que você achou?'. Ele falou: 'Amei, achei totalmente anos 70, parece não sei o quê'. Falei: 'É...Íncrível'. Eu vou para Porto Alegre, fiz um filme lá que eu falava gauchês, aí eu começo a falar gauchês. Adoro isso. Tudo o que eu já tenho, eu já tenho, vou perder a oportunidade de aprender coisas novas? Tenho até que tomar cuidado, porque eu sou muito esponja, eu absorvo. Tenho vários sonhos profissionais - quero escrever um romance, escrever um filme para fazer uma personagem de comédia.... Mas o primeiro que me vem à cabeça é ser avó
Um sonho? Ver meus netos pelo menos chegarem à adolescência. É horrível, hoje em dia, não pode mais pressionar ninguém, mas falo muito com os meus filhos, porque quero ser avó. Esse é o sonho. Tenho vários sonhos profissionais - quero escrever um romance, escrever um filme para fazer uma personagem de comédia.... Mas o primeiro que me vem à cabeça é ser avó.
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