Crítica ou elogio: quem governa a nossa mente?

Entre críticas e elogios, reconhecer quem somos pode ajudar a decidir melhor — e agir com mais responsabilidade e criatividade

Rubens Harb Bollos/
Crítica ou elogio: quem governa a nossa mente? Imagem: Malte Mueller/Getty Images

“O momento em que você se perturba com um insulto ou se compraz com um elogio, você ainda é um escravo.”

A autoria da frase é incerta, mas a questão é antiga. Epicteto já discutia quanto nosso julgamento sobre aquilo que recebemos do mundo participa de nossas reações.
Séculos depois, Rumi escreveu no Masnavi: “A alma carnal tornou-se um Faraó por receber tantos elogios.”
A pergunta permanece: como receber aquilo que nos influencia sem entregar ao outro a autoria de nossas respostas?
Nosso próprio organismo oferece uma analogia.
O sistema nervoso recebe informações do corpo e do ambiente, integra-as e produz respostas.
Na neurofisiologia, vias aferentes conduzem informações aos centros nervosos; vias eferentes conduzem sinais para fora deles. Em termos simples: a aferência chega; a eferência sai. Entre ambas, ocorre integração.
Propriocepção
Um exemplo é a propriocepção, capacidade de perceber a posição e o movimento do próprio corpo.
Mesmo sem olhar, sabemos aproximadamente onde está nossa mão. Quando esse sistema falha, movimento, coordenação e equilíbrio podem ser prejudicados. Para nos posicionarmos no mundo, precisamos de informações sobre onde estamos.
Também recebemos dos outros “aferências relacionais”: críticas, elogios, afetos, expectativas, conhecimentos e julgamentos que também os integramos e respondemos com palavras, decisões e comportamentos que, por sua vez, chegam aos outros.
Vivemos em circuitos permanentes de receber, integrar e responder.
E entre muitas influências e uma resposta deliberada podemos criar espaço para avaliar e decidir.
Elogio não é identidade. Crítica não é ameaça.
Um elogio pode ser adulação ou reconhecimento de mérito real.
Uma crítica pode ser falsa e injusta; outra, revelar algo que não percebíamos ou não sabíamos.
Quem não admite crítica perde oportunidades de reconhecer e corrigir erros.
Quem depende do elogio para reconhecer o próprio valor entrega ao outro parte da construção de sua identidade.
Autonomia — do grego autós, si mesmo, e nómos, lei ou norma — não significa ignorar críticas ou rejeitar elogios.
É permanecer aberto ao que chega sem entregar ao outro o governo de nossas decisões: confrontar informações com realidade, conhecimento, valores e autorreflexão antes de responder.
Essa capacidade dialoga com a flexibilidade psicológica: adaptar-se às circunstâncias, rever estratégias e agir de acordo com valores.
Uma meta-análise de 151 estudos associou maior inflexibilidade psicológica a menor bem-estar.
Se a propriocepção nos informa onde está o corpo, podemos pensar o autorreconhecimento como uma “propriocepção da identidade”: saber quem somos, o que sabemos, o que precisamos rever e para onde queremos ir.
Isso não é autossuficiência.
Construímos identidade nas relações e precisamos do outro para aprender, discordar, corrigir, criar e inovar.
A diferença está entre ser transformado pelo encontro e ser governado por ele.
Aristóteles chamou de phronēsis a sabedoria prática: avaliar as circunstâncias para decidir como agir.
É aí que identidade e ética se encontram.
Recebo uma crítica: há fundamento? Preciso rever algo?
Recebo um elogio: reconhece mérito ou apenas confirma uma imagem que desejo preservar?

Críticas e elogios participam da formação da identidade e podem afetar a saúde mental, especialmente em fases de maior sensibilidade à avaliação social.
Isso vale para parentalidade e liderança: como criticamos, reconhecemos e favorecemos a autonomia?
O objetivo não é permanecer igual, mas rever quando necessário e sustentar uma posição quando houver fundamento.
Sem essa flexibilidade, padrões úteis podem virar rigidez, passadas podem nos prender a caminhos que as evidências recomendam rever.
O mesmo vale para o mérito: podemos realizar algo importante sem sermos reconhecidos ou receber crédito além do que fizemos. O olhar do outro importa, mas precisa ser confrontado com realidade, critérios, evidências e autorreconhecimento.
Em situações de impasse, até o distanciamento pode ajudar a recuperar regulação emocional e discernimento.
Aqui criatividade e autoridade se encontram.
Criar exige liberdade para gerar possibilidades e critérios para escolhê-las.
A autoridade contribui quando oferece conhecimento e experiência; prejudica quando transforma posição ou hierarquia em verdade e rejeita a crítica.
Com a Inteligência Artificial, produzir respostas plausíveis ficou fácil e rápido.
Discernir o que merece confiança continua sendo uma tarefa humana.
Fluência não é evidência; segurança não é verdade; variedade não é, por si só, criatividade.
A IA oferece, em segundos, informações, hipóteses e sugestões.
Algumas ampliam nosso pensamento; outras contêm erros, vieses ou associações frágeis.
Por isso, o desafio não é rejeitá-la nem terceirizar decisões, mas saber perguntar, verificar e escolher.
A tradição socrática já mostrava o valor da pergunta para examinar o que pensamos: há sustentação factual?
Coerência epistemológica?
A fonte é confiável?
Existem vieses?
A resposta ampliou minha compreensão ou apenas confirmou o que eu já acreditava?
A tecnologia muda as interfaces, não a necessidade de formação ética.
Quanto mais rápidas, numerosas e convincentes forem as informações, maior nossa responsabilidade sobre o que fazemos com elas.
Isso vale para relações, organizações, redes e comunidades.
Preservar humildade, humanidade e humor como base de uma liderança humanista ajuda a sustentar diálogo, cooperação, reparação, criatividade e inovação.
A IA participa do circuito, mas autoria e responsabilidade continuam humanas.
A Recomendação sobre a Ética da IA da UNESCO inclui supervisão, responsabilidade e prestação de contas — princípios que exigem maturidade, sobretudo na liderança, onde impulsividade e exposição podem ampliar erros.
Sabemos receber críticas e elogios sem sermos governados por eles?
Criar exige abertura ao novo; inovar, rever o conhecido; evoluir, aceitar correções.
Mérito exige critérios melhores do que aplauso ou rejeição, e autoridade precisa permanecer aberta à crítica.
Autonomia não é soberania.
Pessoas, instituições, algoritmos, hierarquias e ambientes influenciam o que percebemos e imaginamos.
Por isso, dissenso e revisão também fazem parte da governança.
Governar a própria mente não é impedir que o mundo entre.
É reconhecer quem somos, avaliar o que recebemos e decidir o que devolvemos à comunidade.
Não controlamos tudo o que nos influencia. Liberdade é não ser governado por crítica, elogio ou tecnologia.
Diante disso, restam duas perguntas: saberemos preservar a autoria de nossas respostas?
E formar lideranças capazes de renovar, criar e evoluir sem se tornarem escravas do aplauso ou da rejeição?

Rubens Harb Bollos é médico, PhD em Ciências da Saúde e counsellor em gestão de crise e saúde, e presidente-fundador da ABMPP (Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão)




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