Varanda de Michael Jackson é fechada em Salvador
Fãs lamentam o fechamento de local tão simbólico
Foto: Giovanni Mereghetti/UCG/Universal Images Group via Getty Images Por quase 17 anos, os visitantes que iam ao Largo do Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador, se deparavam com a imagem de Michael Jackson posta na varanda da casa azul que aparece no clipe da música They Don’t Care About Us, gravado no local em 1996.
Mas, desde o último dia 23, o totem do rei do pop deixou de compor a paisagem do Pelourinho e retornou para a casa do comerciante Carlos Alberto dos Santos, de 63 anos.
Durante todo esse tempo, a imagem ocupava o espaço por meio de um acordo feito com o proprietário, que seria estrangeiro e não usava o casarão. Agora, porém, o imóvel foi fechado por uma decisão judicial que atendeu a um pedido de reintegração de posse.
Com isso, Carlos Alberto começa a pensar em um recomeço, enquanto fãs de Michael Jackson pedem a manutenção da varanda pelo peso histórico do clipe gravado na capital baiana.
O comerciante citou o orgulho ao refletir sobre o legado que construiu na casa.
“Tiveram turistas que perguntaram quanto era que eu queria para dormir na casa. Tiveram outros que falavam outras coisas. Teve gente assim que eu até me emocionei, porque falou assim: ‘Poxa, moço, minha filha está fazendo aniversário, eu perguntei a ela o que era que ela queria de aniversário, ela disse que nada, eu só quero ir pra Salvador pra conhecer a casa do Michael’”, relembra.
Antes da varanda do Michael Jackson, Carlos Alberto trabalhava como vendedor ambulante de fitas de filmes também ali no Largo. Ele costumava ficar em frente às casas azul e amarela, pertencentes ao estrangeiro. O comerciante conta que conhecia o proprietário e pediu a ele para vender coisas no local.
“Michael não tinha falecido ainda, e também ninguém nem dava aquela importância, pessoal olhava a casa assim. Para ser sincero, ninguém fazia questão.”
Mas aí veio a morte de Michael Jackson, em 2009, e a varanda passou a atrair a curiosidade de fãs e turistas.
“Aí teve pessoas que passaram: ‘Poxa, moço, deixa eu tirar foto lá em cima, eu compro alguma coisa’. Aí eu tive a ideia, ‘vou estipular um preço para pessoa subir pra tirar foto‘“, conta.
No início, ele cobrava R$ 2 e o valor foi aumentando com os anos. Antes do fechamento, estava em R$ 10.
Segundo Carlos Alberto, inicialmente, o acordo com o proprietário era informal, mas, em 2015, ele assinou um contrato sem saber ao certo do que se tratava. “Só que depois eu assinei, foi rapidinho, que eu não podia nem ficar em pé direito, eu assinei e perguntei a ele o que era aquela papelada lá. Ele disse assim: ‘Esse papel aí é para quando o prédio for vendido. Enquanto ele não for vendido, pode ficar aí, agora se ele for vendido, você vai ter que sair em um mês’.”
Quem aparece como proprietária do imóvel no processo de reintegração de posse é a empresa My Falcam Brasil Empreendimentos e Produções Ltda, que menciona o contrato citado por Carlos Alberto e que confirma ter cedido o espaço do térreo ao comerciante, mas que ele teria descumprido regras ao explorar a varanda comercialmente. Além disso, a empresa diz que o imóvel foi autuado pelo Corpo de Bombeiros da Bahia em 2025 para cumprir medidas de segurança.
Agora, sem o meio que foi seu sustento durante 17 anos, Carlos Alberto confessa ainda estar assimilando o que fazer. Ele quer voltar a trabalhar como ambulante, mas pede ajuda para conseguir uma licença com a Prefeitura de Salvador e um ponto fixo na região do Pelourinho, onde também mora.
Em sua casa, de um único cômodo, o comerciante divide espaço com o totem de Michael Jackson, remédios para tratamento de uma úlcera varicosa na perna e uma máquina de estampas de camisas que ele faz. No rack onde fica a televisão, o comerciante aponta para umas cédulas de reais.
“O único dinheiro que eu tenho é esse aí”, afirma, complementando que fez um estoque dos remédios que toma para caso venha passar alguma necessidade e que recebeu já ajuda de amigos. Dos gastos fixos que têm, os que mais lhe preocupa são o aluguel, de R$ 800, e as pensões de R$ 450 de dois filhos.
Mobilização pela varanda de Michael Jackson
A turista Ana Júlia, de 24 anos, do interior de São Paulo, conta que tinha colocado a varanda de Michael Jackson em seu roteiro por Salvador e se decepcionou ao vê-la fechada. A jovem diz que conhecia o local pelo videoclipe e se surpreendeu ao pesquisar e ver que poderia visitá-lo.
A frustração entre fãs de Michael Jackson com a disputa judicial fez com que fosse criado um abaixo-assinado pedindo a manutenção da varanda em homenagem à passagem do ídolo pelo Brasil. Até o momento, o documento possui 3.044 assinaturas.
“É um verdadeiro absurdo mexerem diretamente com a cultura e a memória do maior artista do pop em Salvador. Quando fui ao Pelourinho, a atração principal era ver a varanda que o Michael gravou o clipe. O Brasil entrou em evidência, o Pelourinho entrou em evidência, gente do mundo inteiro quis ir conhecer o Olodum graças ao clipe”, escreveu uma fã de Recife (PE) nos comentários do abaixo-assinado.
Ao ouvir sobre o abaixo-assinado e sobre toda a mobilização que o despejo tem gerado, Carlos Alberto sente ter construído um pedaço da história do local. “Eu fiquei alegre, porque, poxa, é um legado meu. Tomara que a pessoa que for ficar por lá tenha paciência para explicar às pessoas sobre o clipe. Porque eu trabalhava e atendia as pessoas com muita disposição.”
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