Rodolfo Abrantes, do grupo Rodox — Foto: Divulgação/dantas Jr. Se não se assemelha a um culto evangélico nos moldes tradicionais, o show do Rodox que passou pelo Rio na última sexta-feira, dia 24, num Sacadura 154 lotado por cerca de duas mil pessoas, pode muito bem ser classificado como uma experiência religiosa.
A banda liderada por Rodolfo Abrantes — sim, o cara dos Raimundos que virou crente, como conta a série documental “Andar na pedra”, sucesso do Globoplay — começou sua primeira turnê em mais de 20 anos há duas semanas, e o som mega-agressivo (praticamente sem concessões pops ou baladas como “Mulher de fases”, “A mais pedida” e muito menos com a conotação sexual de “Selim” ou “Puteiro em João Pessoa”) comanda uma roda de pogo suarenta, barulhenta, que invariavelmente acaba com aplausos e sorrisos. “De costas pro mar”, “Dia quente” e “Quem tem coragem não finge”, todas praticamente sem referências religiosas diretas, são algumas das mais populares.
Suado e feliz, distribuindo abraços, “Deus abençoe” e saindo em fotos com quem está por perto, Rodolfo, de 53 anos — sempre baixinho e ainda mais atlético do que nos tempos de Raimundos, talvez pela prática do surfe em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, onde mora, além de viagens a points como Havaí e Indonésia — conversou nos bastidores da casa de shows da Região Portuária do Rio.
Por que voltar com o Rodox agora?
Assim, ó: tudo começa em 2023, quando tirei um ano sabático. Eu estava há uns 20 anos só pregando, ministrando dentro de igreja, fazendo meu som acústico, as músicas da minha carreira solo (ele tem cerca de 420 mil ouvintes mensais no Spotify).
E por que o ano sabático?
Foi para dar um reset mesmo. Não era um tipo dar um pause para voltar um ano depois fazendo a mesma coisa. Eu entendi que o ciclo tinha se encerrado e agora eu ia jogar em outra posição, sabe? Nos primeiros seis meses eu não tive resposta, até que estava em Bali, dentro da água, e ouvi de Deus que eu ia voltar para o palco, dar atenção à minha música. Imediatamente liguei para uns amigos e disse: “Aí, Deus me deu uma fita aqui, acho que é isso.”
E comecei a maturar a ideia. E foi louco porque eu comecei o ano sabático no Havaí. Aluguei uma casa que tinha uma malucada, assim... só maluco! Os caras comiam cogumelo todo dia, e eu acostumado só com vida de igreja. A princípio eu falei: “Cara, o que eu estou fazendo? Que roubada ficar três meses nessa casa!”
Aí, lá pela terceira semana, saiu o filme “Jesus revolution” (drama religioso que é dirigido por Jon Erwin e Brent McCorkle). Fui ao cinema ver com a minha mulher, e eu soluçava, me via dentro do filme. Aí eu entendi: o meu povo missionário é o povo do qual eu vim.
Você entendeu que tinha que falar com os fãs de rock, mais do que com os evangélicos em geral?
Isso. Aí eu comecei a maturar tudo e montei a turnê solo “Microfonia”, conheci o Jeff, que hoje é meu empresário, e tudo começou a andar. Um mês antes do início da turnê, eu estava na Itália, na praia, com a Alexandra, minha mulher, e ela perguntou o que eu queria ouvir. Sem pensar, eu disse: “Bota Rodox!”
Tinha um século que eu não ouvia a banda (os dois discos do grupo, “Estreito” e “Rodox”, foram lançados em 2002 e 2003, respectivamente). Ela foi botando as músicas, e eu comecei a soluçar. Eu tinha um ano de convertido quando fiz aquelas músicas, e como tinha vida naquele bagulho! Aí liguei para os meninos da banda e começamos a tocar algumas músicas do Rodox nos shows da turnê “Microfonia”.
Mas ainda não era o Rodox?
Não, era a minha banda solo. Mas, quando a gente tocava as músicas, era outra atmosfera, todo mundo virava criança de novo. Nessa época, Fernandão (Schaefer, baterista) também estava tocando Rodox com a banda dele. As coisas começaram a acontecer em paralelo.
No fim do ano passado, antes de levar a turnê para o Hangar, templo do punk e da música alternativa de São Paulo, numa noite, orando, vi o Fernandão. Ele estava feliz, de camisa floral, na praia, sorrindo, óculos escuros, diferente daquele cara cascudo, o monstro da bateria que a gente tem na banda. Aí eu o convidei para participar do show, sem contar a ninguém. Foi o primeiro show sold out da turnê “Microfonia”. Catarse. Fernandão tocou sorrindo o show inteiro, e falei: “Não tem mais como.”
Queria voltar com os originais, e quase consegui: meus “meninos do Rio”, Patrick (Laplan, baixista original do Los Hermanos) e Pedro (Nogueira, guitarrista) estão comigo, só o Marco Ardanuy (guitarrista) não pôde, por compromissos pessoais, e trouxe o Vitinho (Victor Pradella), que toca comigo há séculos. Fernandão foi o último pra quem liguei, fiquei cozinhando ele (risos).
E como está a volta?
Cara, é o que você viu hoje, a gente está vendo acontecer entre a gente e refletindo no público, sabe? Uma das coisas que eu mais gosto dessa volta é o fato de não ter mais que explicar Rodox para ninguém.
E como é o público do Rodox?
Pé no chão. Lugar pequeno. HC (hardcore). Os shows da gente não eram grandes, não eram cheios. O show de hoje foi o primeiro da história da banda no Rio, você sabe, né?
Por que vocês não tinham tocado no Rio?
Não tenho a menor ideia. Vamos devagarinho, porque a produção é toda nossa, né? Então, se toma um tufo, é a gente que paga. Então vamos com o pé no chão. Quando a gente anunciou a volta, brother, acho que em três dias nosso Instagram tinha cem mil seguidores (no momento, passa de 150 mil). Tipo assim, a galera abraçou, os sites de rock todos falando, todo mundo com uma alegria muito louca. A gente está até chato, porque fica falando a mesma coisa
o dia inteiro. Tá demais. É um show melhor que o outro.
Como está a procura pelo show?
Seria uma turnê de retorno, só no primeiro semestre, com uns 20 shows. Agora já são 60 marcados, até o fim do ano, e estamos falando em disco novo. Vida longa pra nós, os velhos ainda têm lenha para queimar!
O público do Rodox tem um componente religioso?
É o público do Rodox. Acho que a gente está conseguindo viver uma coisa que eu sonho para o Brasil, que é a quebra dos muros, entendeu? Não é um negócio de ficar em cima do muro e não dar a sua posição, é acima do muro, voando, transitando por todo o ambiente.
Sabe, no Rodox tem gente de direita, tem gente de esquerda, e a gente nunca discutiu por causa disso. A gente se ama cada dia mais e vê isso no povo. A galera da fé que está no show é uns 20%. Tem ateu, tem gente de outras religiões. Você vê gente de todo jeito, e todo mundo com um sorriso na cara, cantando e dançando junto.
O show de hoje foi o nono ou décimo, e não teve uma briga, não tem uma confusão. Tá todo mundo muito feliz. Eu acho que isso é um ambiente que o Rodox traz para o lugar. Não é que a gente seja especial, mas a gente acredita nisso, sabe?
Essa guerra política é de político velho, não é nossa. Eles usam isso para nos manipular, para nos dividir e nos controlar. Eu não odeio ninguém. Aliás, por ser cristão, sou odiado por todo mundo, então eu quero é mais, é fim de guerra. A gente está vivendo um momento muito legal, tem muita saúde, muita vida nisso. Criança, velho, maluco, gente de cara tatuada, crente, bonitinho. Tá tudo misturado.
O que você achou da série documental dos Raimundos, “Andar na pedra”?
Cara, eu amei. Gravei em duas sessões, uma de seis horas, a outra de oito. E, se tivesse mais uma, teria assunto para mais oito. É um mergulho dentro do meu coração, revisitando lugares que eu nunca revisitei. Eu amei a forma como o Daniel (Ferro, diretor) colocou, porque não tem herói nem vilão na série.
São seres humanos falhos, entende? Que sirva de lição para as outras bandas, sabe? “Aprenda a conversar!”
Aqui no Rodox a gente tem isso desde o começo, que chamamos de matar minhoca. Se você não mata essa minhoca, ela vira um dragão. Estou muito feliz com o lugar em que os Raimundos estão hoje, fazendo shows enormes pelo Brasil, em turnê com o Guns N’ Roses. Falo com o Digão direto, ontem ele estava me mostrando foto do carro que ele tinha na época em que a gente fumava bagulho, indo pra fazenda dele.
Você se sente mais compreendido?
Claro. Na época, todo mundo me odiava: “O cara virou crente, saiu da banda.” Não é exatamente isso, foi uma série de erros desde o começo, e tudo se acumulou, acumulou, acumulou. A série saiu um mês antes de a turnê começar. Parece que eu saí dos Raimundos no fim do ano e comecei o Rodox agora, mas se passaram mais de 20 anos.
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