Mensagem de cada DIA!
Revisitando Star Trek
Marlene Theodoro Polito
Em um episódio de Star Trek, o capitão James T. Kirk chega a um planeta onde o espaço deixou de existir como escolha. Ali, descobre, por meio de Odona, que a superpopulação não é circunstancial. A morte se tornou rara, quase inexistente, e o planeta foi sendo tomado por uma presença contínua de corpos.
Corredores, salas, passagens: tudo está ocupado. Não há intervalos. A presença do outro é contínua, inevitável. Estar só deixou de ser uma possibilidade.
O que poderia parecer, à primeira vista, um triunfo, a vida que não se interrompe, transforma-se, ali, em um impasse silencioso.
O perturbador não é apenas o excesso de gente. É a impossibilidade de regular a própria presença. Cada gesto é visto. Cada movimento, percebido. Não há recuo, nem pausa.
E nem a margem de escolha entre se aproximar ou se afastar. Sem escolha, a proximidade deixa de ser vínculo. Torna-se imposição.
Talvez seja justamente essa experiência limite que nos ajude a compreender o movimento oposto em nosso cotidiano.
Em nossos próprios espaços, se, naquele planeta, o drama está em não conseguir escapar do outro, aqui parece estar em dosá-lo a todo instante.
Em ambientes apertados, elevadores, filas, salas de espera, vagões de trem, criamos uma curiosa arte da contenção. Os corpos se aproximam, mas a proximidade não se converte em encontro.
Basta entrar num elevador para perceber. As portas se fecham e, quase no mesmo instante, cada um reposiciona o corpo como quem assume um papel já conhecido. Um ajeita a bolsa. Outro fixa os olhos no painel luminoso. Há quem consulte o celular, mesmo sem notificações. Ninguém se olha diretamente.
O silêncio, ali, não surge por acaso. É construído.
Há uma espécie de coreografia da encenação nesses momentos. Nada foi combinado e, ainda assim, quase todos obedecem.
O espaço físico encolhe, mas o espaço simbólico é recomposto por outros meios: pelo olhar que se desvia, pelo gesto contido, pelo corpo que se retrai, pela atenção súbita a um detalhe irrelevante.
É como se, diante da falta de distância material, inventássemos uma distância invisível para continuar respirando.
Foi para observar esse tipo de regulação que se desenvolveu o estudo da proxêmica: a maneira como o espaço, as distâncias e as posições do corpo também comunicam. Não falamos apenas com palavras. Falamos com aproximações, afastamentos, recuos, hesitações. O espaço, afinal, também tem gramática.
Há um gesto recorrente nesses cenários: aquele breve reconhecimento do outro que logo se recolhe para não o invadir. Vemos, registramos, desviamos. Nem indiferença absoluta, nem abertura ao contato. Apenas o suficiente para manter a convivência sem criar obrigação.
Já me aconteceu de ficar presa num elevador com outras pessoas. A experiência muda a dinâmica.
O que antes era silêncio organizado começa a ceder. Primeiro, um olhar um pouco mais demorado. Depois, um comentário tímido. Alguém arrisca um gracejo. Outro responde com um sorriso que, desta vez, não recua.
O tempo ganha espessura. As regras silenciosas perdem força. E, no lugar da contenção, surge algo mais próximo, ainda cauteloso, mas real. Curiosamente, é preciso que o elevador pare para que as pessoas, por um instante, deixem de se evitar.
O que acontece ali não se limita ao elevador.
Nos corredores dos prédios, dois vizinhos decidem, em segundos, entre o “bom dia” e o silêncio. Muitas vezes, vence o silêncio, não por hostilidade, mas por prudência. Um gesto simples pode inaugurar uma continuidade. E continuidade dá trabalho.
Também nas salas de espera se vê essa encenação delicada. Pessoas compartilham o mesmo tempo suspenso, a mesma demora, a mesma inquietação, mas procuram não transformar essa experiência em experiência partilhada. Cada uma se abriga numa revista antiga, no celular, num ponto neutro da parede.
Talvez por isso as crianças desconcertem tanto esses ambientes.
Ainda não aprenderam essa gramática do recuo. Olham sem disfarce, perguntam o que não se pergunta, falam com desconhecidos. Rompem a cena. Trazem um ar fresco justamente porque desmontam, sem intenção, a coreografia da encenação.
Há algo de profundamente contemporâneo nisso. Nunca estivemos tão próximos e, ao mesmo tempo, tão protegidos uns dos outros. Vivemos um tempo de relações mais leves, menos comprometidas. Em muitos contextos, evitar o encontro pode ser também uma forma de evitar aquilo que ele pode exigir.
Há, nessas regras discretas, uma forma de proteção. Sem elas, a vida urbana talvez se tornasse excessiva. Não é possível transformar todo encontro casual em convivência efetiva. E, no entanto, quando esse mecanismo se torna automático demais, algo se empobrece.
Entre o planeta superlotado de Jornada nas Estrelas e o nosso mundo de silêncios administrados, talvez estejamos sempre buscando uma medida possível para a convivência. Nem o sufocamento da proximidade imposta. Nem o esvaziamento do encontro permanentemente adiado.
Apenas alguma forma habitável de estar perto sem desaparecer, e de reconhecer o outro sem transformar cada gesto num compromisso.
Ao sair do elevador, tudo se desfaz com rapidez.
Mas fica a impressão de que, mesmo tão próximos, seguimos especialistas em evitar o outro.
O elevador é rápido. A distância que criamos, nem tanto.
Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação na ECA-USP.
É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio jabuti) e “O enigma de Sofia”.
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