Walber Guimarães Junior
Moleque travesso no Congresso
Quase todo mundo tem na família um filho ou sobrinho muito atentado, daqueles que não se pode descuidar um segundo que lá vem arte. O Brasil tem um filho assim, o Congresso Nacional que insiste nas travessuras e adora brincar com o povo brasileiro.
A questão é que todo mundo tem um filho predileto e, no caso dos brasileiros, ele trabalha no executivo, absorve toda a sua paixão e exige toda a sua atenção, enquanto o moleque travesso está sempre pelas sombras, aprontando das suas e, como todo irmão esperto, sempre enrolando o outro em suas artes.
Assim como ninguém olha para o cunhado quando escolhe a mulher, o brasileiro também só tem olhos para o filho favorito, sem perceber que o pacote vem completo, exceto se ele estiver atento e exigir uma boa companhia que ajude o filho executivo a fazer um bom trabalho.
Ainda estamos em fevereiro, e quase todo mundo já tem o seu escolhido, provavelmente o mesmo das edições anteriores, embora um deles venha renovado, no entanto não demonstra nenhuma pressa em escolher o seu parceiro, aquele que vai para o legislativo.
Como sempre, escolhe qualquer um, em cima da hora, achando que não faz a menor diferença.
Ocorre que não existe ninguém perfeito e os pequenos pecados do filhinho preferido sempre foram testemunhados pelo mano esperto que adora assumir o comando, pedindo coisas impensáveis para garantir o sigilo e manter os pais desinformados.
Sem alternativas, para manter o prestígio, as “coisas impensáveis” estão sempre acontecendo e a conta sempre sobra para os pais desavisados.
Este pequeno enredo talvez se encaixe na tua família, mas, com certeza, se repete a cada quatro anos para a família Brasil.
Somos assim por natureza, nosso predileto, cravado no coração, por quem brigamos e arrumamos inimizade, e qualquer um para as tarefas secundárias, porque a gente ainda não percebeu que serviço completo só ocorre se ambos trabalharem bem e que, embora o segundo consiga segurar a onda se o primeiro estiver errado, quase ninguém consegue conter o filho levado.
Felizmente, as vezes nos visita aquele tio carrancudo, tipo um gorducho daquele seriado da TV, a família Dino, que com cara de bravo e varinha de marmelo na mão, consegue evitar tragédias ainda maiores. Pense comigo; não está certo a gente depender de terceiros para resolver nossos problemas e que, se a gente tiver juízo nas nossas escolhas, não precisaremos de ninguém para coibir os abusos simplesmente porque eles não devem acontecer.
Desculpe-me a introdução travessa, talvez ajude para conter a Ira Santa que nos acomete quando a gente percebe que nossos deputados continuam focados apenas nos seus umbigos, trabalhando exclusivamente para si e para os seus, aprovando falcatruas e patifarias que, a cada ação, reduzem nossa capacidade de trilhar o caminho da decência e do desenvolvimento.
Claro que a generalização é indevida, mas a maioria é tão consistente que as exceções somem na multidão, ainda que precisem ser reconhecidos e referenciados.
Desta vez foi a PEC dos penduricalhos que, somada a anterior do Senado, vai nos tomar quase oitocentos milhões só em 2026 e ainda vai ter efeitos reflexivos e perenes e, com rápidas projeções, posso estimar em até seis bilhões de prejuízo até o final do próximo mandato presidencial, valor mais que suficiente para um monte de ações positivas em favor do interesse coletivo, mas que irá para o bolso dos assessores de confiança e familiares dos parlamentares, além de permitir um incremento em suas verbas de gabinete, sem nem mesmo as suas ajudas para reduzir o tamanho da conta porque o presente vem livre de impostos.
Não sei qual vai ser a sua escolha em 2026, mas, olhando para as pesquisas, vejo que mais de 70% tendem a repetir o voto em Lula e no Bolsonaro, agora o filho Flavio, e, vamos ser bem objetivos, os dois falharam terrivelmente na relação com o Congresso, sempre se submetendo às chantagens e pagando com dinheiro público, com o singelo nome de emendas, algumas secretas, o preço de suas aspirações, da governabilidade e da manutenção de seus projetos de governo.
Não me importo se você ficou ofendido porque estou criticando seu político favorito, apenas cumpro a minha obrigação de colocar o dedo na ferida e te informar que sem um Congresso decente, independente e focado nos interesses da Nação, não conseguiremos fazer as reformas administrativa, tributária e política, todas imprescindíveis para nos dar alguma chance de ajustar os rumos de um país.
Claro que um senso de reponsabilidade fiscal mais aguçado ajuda, retarda a tragédia anunciada dos juros impagáveis do nosso passado de irresponsabilidades e afagos indevidos nas nossas elites, mas não tem peso para liquidar as amarras que nos contêm no terceiro mundo, não tem tração para nos colocar no trilho certo e não temos mais tempo para esperar.
O futuro é amanhã de manhã.
Longe de mim querer te sugerir que mude seu voto, que abandone seu malvado preferido porque não é este o caso.
É possível que no segundo tempo seja mesmo este par ou ímpar igual as anteriores, sem consequências práticas para a busca de nossos objetivos coletivos, mas afirmar com ênfase que se você não tiver critérios eficazes para escolher nossos legisladores, seu malvado preferido vai continuar trocando figurinhas com o Congresso de forma obscena, ainda que tentem dar ares de normalidade e que, algumas vezes, tenham que enfrentar o mau humor do nosso último guardião, Flavio Dino.
De novo, o Congresso será o palco das grandes decisões, onde todas as nossas mazelas podem construir um caminho de recuperação e onde os nossos reais problemas podem ser resolvidos. Deixem o executivo quieto, brincando de motociata ou passeando pelos palanques, além da insensata diversão de escolher e trocar de ministros, sem exigir plano de trabalho, sem feedback e sem um olhar crítico porque basta que continuem tirando nota alta no crivo da legenda que o apadrinha que terão vida longa na Esplanada.
Jair e Lula, assim como os anteriores, passaram os quatro anos focados na reeleição, real motivação de praticamente todas as suas decisões, por que não começar impedindo a reprodução dos mandatos para que o foco se mantenha nas ações efetivas e não no jogo eleitoral que consome milhões, agradando as lideranças que tem peso e que levam as fatias principais do bolo e nos deixam o cheiro do glacê azedo da festa da véspera?
2026 não é apenas o ano da escolha do próximo presidente, mas uma excelente oportunidade para que a Nação escolha um Congresso decente, independente, honesto e competente para aprovar as reformas que são a única possibilidade de nos permitir pensar em um futuro feliz para um país que caminha para o abismo.
Pense nisto. Talvez imaginando o seu time de futebol com um único craque com a camisa dez e um monte de perebas e amebas ao redor, enfrentando adversários poderosos, te pareça evidente que o craque isolado não conseguirá fazer milagres.
O que você acha de escalar um ótimo time para jogar no mesmo time e nos permitir ganhar o campeonato?
COMENTÁRIOS