Seja bem-vindo
Maringá,04/04/2026

  • A +
  • A -

Mensagem de cada DIA!

A mulher que passou

FreePik
A mulher que passou

Era pouco depois das seis horas, e a cidade ainda não tinha decidido se acordava de vez.
O ônibus da JK chegou com aquele cansaço antigo dos primeiros horários, como se também tivesse preguiça de começar o dia.
Desceu uma mulher. Meia idade, corpo cheio, passos lentos, mas firmes. Seguiu em direção à praça, onde fica academia. Não havia pressa nela.
Meu pensamento foi rápido, quase automático. Povoado por essas ideias que não pedem licença e já vão ocupando espaço. Imaginei que ela tinha um trabalho duro, uma vida mais simples, talvez um cansaço que começava cedo demais.
Quando passou por mim, cumprimentou com naturalidade. Fiquei feliz porque o gesto significava que eu era confiável.  Respondi amavelmente enquanto insistia nos meus movimentos, tentando manter o corpo ocupado e a cabeça em silêncio.
Não consegui.
Senti alguém muito perto. Uma respiração que não era a minha.
Tentei virar o rosto, mas algo me deteve, um frio leve no pescoço, mais sugestão do que ameaça. Fiquei imóvel.
Então veio a voz. Não era dura. Era calma, quase paciente, como quem explica o óbvio a uma criança distraída. Era a mulher que passou.
Começou a desfazer meus pensamentos, um por um, sem pressa, como quem desmonta um erro. Falava do meu olhar apressado, das conclusões que eu tirei sem saber, das histórias que inventei mentalmente sobre ela. 
Não perguntava nada, apenas colocava diante de mim aquilo que eu mesmo havia construído. A verdade não precisava de confirmação.
Depois, com a mesma serenidade, ela falou da própria vida. Que não cabia em nenhum dos rótulos que eu havia escolhido. Falou de afetos, de rotina, de escolhas. 
Enquanto ouvia, senti o desconforto crescer devagar. Percebi o quanto carrego comigo esse impulso de olhar e decidir, de concluir antes de compreender.
Ali, parado, entendi que não era a primeira vez. Nem seria a última, se eu não prestasse atenção nas minhas análises balizadas pelo olhar.
O dia começava a clarear quando o incômodo no pescoço desapareceu.
Já não havia ninguém atrás de mim, apenas o silêncio. Acompanhado de um certo alívio, desses que vêm misturados com vergonha.
Olhei para trás.
Ela seguia adiante, longe, no mesmo passo tranquilo. Em um momento, virou-se.
Pensei ter visto um sorriso maternal em seu rosto. E seguiu, como se nada tivesse acontecido.
Mas tinha.

                                         Dirceu Herrero Gomes


COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.